Djalma Argollo

Djalma Argollo
Terapeuta Junguiano

sábado, 3 de janeiro de 2015

Condorino aprende a voar


Metáfora  da autoria de Djalma Argollo

A cordilheira dos Andes se estende como uma imensa coluna vertebral por todo o imenso continente Sul Americano. Apesar da grande altura dos seus picos, ela ainda está sendo erguida pelo ciclópico embate entre as placas tectônicas da América do Sul e do Pacífico, por isso, terremotos de magnitudes variadas, são comuns por toda a sua extensão. 
No momento em que começo esse conto podia-se ver, nas encostas da mais alta montanha, vários ninhos que ostentavam ovos de Condor, a imponente ave cujos ancestrais acompanharam o nascer e morrer de diversos povos andinos, com seus rituais macabros de sacrifícios humanos, cujos esqueletos mutilados são escavados hoje em dia por arqueólogos estarrecidos. Os Condores testemunharam o surgimento do Império Inca, sua expansão, domínio e escravização de diversas tribos, e sua destruição, igualmente cruel, nas mãos sangrentas do ambicioso e perverso Pizzarro.
Numa sincronia ditada pelo ciclo do acasalamento, dos ovos chocados pelas Condores fêmeas começaram a nascer os filhotes que, naturalmente, vinham ao mundo delicados e frágeis, sem a imponência dos seus pais.
Condorino foi o último dos filhotes de todos os ninhos da região a quebrar a casca do ovo onde se desenvolveu. Assim, quando começou sua jornada existencial, todos os demais filhotes já estavam adiantadas etapas de crescimento.
Alimentado e protegido pelos pais, como os demais filhotes da vizinhança, Condorino se desenvolvia rapidamente. Sem muita coisa para fazer, senão comer os alimentos que seus pais regurgitavam bem fundo em seu bico ansioso e exigente, ficava observando as acrobacias aéreas dos Condores, no azáfama incessante da coleta de alimentos para si e para os filhotes. Seguindo com os olhos suas piruetas sofisticadas. Imaginava como seria bom voar daquela maneira. E se perguntava como conseguiam volitar pelos espaços, sem nada onde se sustentar. Interrogava os pais se um dia ele também voaria, e eles respondiam:
- Claro, filho, você também é um condor.
Escutava atento, mas sentindo a própria fragilidade, duvidava que isso fosse possível.
- Como é que se voa?
Indagou um dia à sua mamãe.
- Nós aproveitamos as correntes de vento que sobem e se espalham pelos espaços.
Respondeu ela, afagando-o com o bico.
- Por quê, pela manhã, você e o papai ficam parados à beira do ninho e, de repente se lançam ao espaço?
- Esperamos que o ar quente suba dos vales lá embaixo, pra dar sustentação às nossas asas. 
Retrucou a bela fêmea de Condor, com um sorriso.
E, de conversa em conversa, papai e mamãe Condor ensinavam-lhe as técnicas de voo usada pela sua espécie. Mas Condorino não conseguia entender nada.
Quando ele queria saber quando e como daria o primeiro voo, os pais lhe diziam, dando sonora gargalhada:
- Na hora certa você verá!
Num ninho próximo ao de Condorino, morava Condoreto, um amigo mais velho, com o qual conversava bastante, e de quem gostava muito. Certo dia, Condorino presenciou uma cena que o deixou transido de pavor: estava o amigo se divertindo em comer as pragas que infestavam-lhe o ninho, quando os pais chegaram. Era meio dia, e o sol a pino iluminava os picos cobertos de eterno gelo.
- Meu filho, chegou a hora de assumires tua vida. Até hoje viveste sustentado por nós, mas, de hoje em diante és adulto e terás de assumir tua vida e teu destino, como Condor que és.
É claro que Condoreto não entendeu nada, e Condorino que tudo escutava, menos ainda. E mais, viu estarrecido e apavorado quando a mãe de Condoreto o forçou a ir para a beirada do ninho e, sem mais aquela, o empurrou para o abismo. Ouviu o grito agoniado do amigo se perder na distância, enquanto caia vertiginosamente. Fechou os olhos aterrorizado. Por isso não presenciou quando o amigo, depois de cair algum tempo, abriu as asas e planou graciosamente de um lado para o outro, se perdendo depois na distância, por entre os picos menores que reluziam ao sol.
Condorino contou aos pais o que acontecera. Não podia entender como uma mãe era capaz de tal crueldade. Seus pais sorriram e nada disseram. Nos dias que se seguiram, Condorino teve pesadelos recorrentes, nos quais se via empurrado do ninho pela mãe, transformada numa águia perversa e sem entranhas, de olhos vermelhos e maus; enquanto seu pai, igualmente deformado, gargalhava sinistramente. Tombava, então, das alturas, vertiginosamente até o vale. Porém, antes que se chocasse contra o chão, acordava assustado e tremendo. Dia a dia ele via as mães empurrarem seus filhotes, escutava seus gritos, e fechava os olhos, tremendo de pavor.
Numa dessas ocasiões resolveu ficar de olhos abertos e viu que o filhote, depois de cair vários metros, saiu voando, sem muita firmeza, mas aos poucos ganhou altura e planou graciosamente pelos espaços. Ficou feliz que o filhote tivesse escapado, pois não vira o que acontecera com os outros. Como o mesmo fato se repetisse, em todos os ninhos, concluiu que esse também era o seu destino. Certamente ele morreria, pois não se sentia capaz de voar. Aterrorizado, passou a ficar amedrontado toda vez que que os pais chegavam ao ninho.
Um dia, percebeu que chegará a sua hora. Sua mãe, e seu pai lhe disseram:
- Filho, agora você vai assumir sua vida. 
E apesar de seus gritos e choro convulsivo, sua mãe, impiedosamente, o empurrou no abismo que, qual enorme e hiante boca, começou a engoli-lo.
Imobilizado pelo medo, caia rumo a uma morte certa quando ouviu uma voz conhecida a lhe gritar:
- ABRA AS ASAS, CONDORINO!
Abriu os olhos e, na vertigem da queda, viu seu amigo Condoreto, voando ao seu redor.
Fazendo um imenso esforço, abriu o mais que pôde suas grandes asas e sentiu um solavanco, causado pelo impacto das correntes quentes que subiam das planícies onde corria o Rio Paraná, que fez estremecer todo o seu corpo. Cambaleou por algum tempo, vendo-se às vezes de cabeça para baixo, às vezes de cabeça para cima.
- VAMOS, MANTENHA-SE FIRME!
Gritou Condoreto.
- MAS EU NÃO SEI VOAR!
Gritou apavorado, sentindo que o chão se aproximava, rapidamente.
- ENTENDO VOCÊ, MAS SAIBA QUE TODOS NÓS, CONDORES, NASCEMOS SABENDO VOAR. É NOSSO INSTINTO. ENTREGUE-SE, A ELE!
Essas palavras calaram fundo na mente de Condorino. Ele se lembrou do filhote que vira, depois de cair algum tempo, sair voando. Aquela visão ganhou força em sua mente e, apesar do medo que sentia, deixou que o sentimento de satisfação ao ver o outro começar a voar, lhe empolgasse o ser! O medo desapareceu como por encanto, sentiu-se motivado pela certeza de que podia também voar. Se outros, como Condoreto podiam, ele, como Condor que era, também podia! Então, quando faltavam poucos metros para se esborrachar numa morte horrível, sentiu-se ascender, ganhando altura e, alegre, percebeu-se voando, como se sempre o tivesse feito. 
Enquanto Condoreto voava em torno dele, sorrindo alegremente, pôs-se a gargalhar de puro alívio: afinal, Condoreto, que aprendera antes dele às custas de uma dura mas necessária experiência, tinha razão: os Condores nasceram para voar. É só acreditar no instinto e deixar-se levar que tudo acontece naturalmente.

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