Djalma Argollo

Djalma Argollo
Terapeuta Junguiano

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Esboço Biográfico de C. G. Jung

(Do Livro Jung e a Mediunidade, de Djalma Motta Argollo)

Carl Gustav Jung nasceu em 26 de julho de 1875, em Kesswil, cantão da Turgóvia, uma pequena cidade Suíça, às margens do Lago Constança, acidente geográfico que serve de fronteira entre esse país e a Alemanha. Seu Pai, Johannes Paul Achilles Jung, era pastor protestante e sua mãe, cujo nome de solteira era Emilie Preiswerk é descrita como uma mulher de gênio difícil, autoritária e, o que realmente interessa a esse estudo, médium. Aliás, a mediunidade foi comum na sua família pelo lado materno, Como veremos mais adiante. Seis meses após o nascimento do filho, mudaram-se para o presbitério do castelo de Laufen, perto da cidade de Basiléia, na região das quedas do rio Reno, na sua margem Suíça. Quatro anos mais tarde, em 1879, uma nova mudança aconteceu: agora para Klein-Hüningen, próximo à Basiléia. Ali, em 1884, nasceu Johanna Gertrud, irmã de Jung que veio a falecer em 1935.
Da mãe, ele guardava uma imagem terna, cheia de admiração:

Minha mãe foi extremamente boa para mim. Ela irradiava um grande calor animal: era corpulenta, extremamente simpática. Sabia ouvir e gostava de conversar, num alegre murmúrio de fonte. Tinha evidentes dons literários, bom gosto, profundidade. Tais qualidades, entretanto, não se manifestavam exteriormente; permaneciam ocultas numa velha senhora gorda, muito hospitaleira, que cozinhava muito bem e tinha muito senso de humor (Jung, 1997, p. 54).

O pai de Jung permanece em suas lembranças como um homem bom, embora de personalidade fraca, sem grandes ambições na vida, um Pastor sem fé no que pregava, o que lhe causava terríveis conflitos íntimos. Na adolescência de Jung, pai e filho tinham muitas e acerbas discussões. Com a morte do pai, Jung, já na universidade, assumiu o posto de chefe de família. Ele narra que a personalidade número 2 (provável interferência mediúnica) de sua mãe lhe disse algum tempo depois: “Ele desapareceu na hora certa para você”; isto parecia significar: “Vocês não se compreendiam e ele poderia ser um obstáculo para você” (Jung, 1997, p. 92). Por aí se pode perceber o clima emocional atribulado naquela família.
Jung foi, durante a infância, perturbado por conflitos, ansiedades e temores. Os pesadelos eram freqüentes e, também, sofreu inúmeros acidentes, que atribuiu em suas memórias a um desejo inconsciente de suicídio.
As crises de dupla personalidade que o assaltavam desde a mais remota infância, batizadas como personalidade 1 e personalidade 2, podem ter como origem a intromissão de lembranças de vidas pretéritas, como sua autobiografia leva a suspeitar, ou a um processo obsessivo com origem em mentes espirituais em desequilíbrio, conforme os ensinos espíritas.
Até sua juventude, o cotidiano de Jung caracterizou-se também por grave crise religiosa, fruto de problemas que devia trazer no inconsciente, aguçados, ou até mesmo estimulados, pela atitude paradoxal de seu pai ser um Pastor sem fé, o que naturalmente o levava a viver um insolúvel dilema existencial. Suas fantasias e sonhos denunciavam esses conflitos.
Aos onze anos, em 1886, ingressou no Liceu de Basiléia, onde realizou seus estudos preparatórios, o que denominamos de primeiro e segundo graus. Desde muito cedo, Jung apresentou intensa curiosidade intelectual, transformando-se num leitor assíduo e de múltiplos interesses, o que lhe proporcionou acumular vasto cabedal de informações, as quais se demonstraram de grande valor em seu trabalho posterior.
Sua vida de colegial foi marcada por atritos com colegas e professores, sendo que estes últimos não conseguiam reconhecer-lhe a genialidade precoce, atribuindo suas dissertações bem elaboradas a plágios ou cópias, o que muito o amargurava.
Quando teve de se definir por uma carreira de nível superior, Jung se dividiu entre a arqueologia e as ciências naturais. Terminou por escolher a medicina, curso que iniciou em 18 de abril de 1895. Ainda nesse ano, fazendo parte da confraria estudantil Zofingia – à qual seu pai pertencera na época de estudante – sobressaía pelas exposições e debates sobre as idéias de Mesmer, Swedenborg, Lombroso (1835-1909) e Schopenhauer. Apontava as falhas da filosofia materialista e defendia o estudo científico dos então chamados “fenômenos psíquicos”. No ano seguinte à sua entrada na universidade, faleceu-lhe o pai.
Entre 1896 e 1899, proferiu cinco palestras na Fraternidade Zofingia, sendo a primeira sobre os fenômenos do espiritismo, como será detalhado mais adiante. E, entre 1898 e 1900 participou de reuniões mediúnicas com familiares, tendo como médium sua prima de 15 anos Hélène Preiswerk.
Em 1900, depois da leitura do Manual de Psiquiatria de Kräfft-Ebing, decidiu-se pela especialização nessa área. No mês de dezembro do mesmo ano, assumiu o lugar de assistente no hospital de Burghölzli, em Zurique. Nesse ano cumpriu, também, seu primeiro período de serviço militar. Em 1902 publicou sua tese de doutorado: “Sobre a Psicologia e Patologia dos Fenômenos Chamados Ocultos”.
No Hospital Psiquiátrico do Cantão de Zurique, entre 1902 e 1906, desenvolveu com alunos e colegas estudos sobre associação de idéias, independentemente das construções teóricas de Freud a esse respeito, provando cientificamente sua validade para a descoberta dos complexos - termo que criou – da psiquê. Estes estudos lhe valeram um convite para apresentá-los na Clark University, nos Estados Unidos, em 1909, onde foi agraciado com o título de doutor honoris causa. No período em que trabalhou naquele hospital, Jung desenvolveu notáveis estudos em torno da esquizofrenia, principalmente no que diz respeito às personalidades múltiplas, que os psicanalistas negaram por muito tempo, e que acabaram sendo reconhecidas como uma realidade, e não criações enganadoras de pacientes mitômanos.
Em 14 de fevereiro de 1903 Jung casou-se com Emma Rauschenbach, com quem veio a ter cinco filhos. Nesse mesmo ano, relendo a Interpretação dos Sonhos, de Freud – lido por ele três anos antes sem maiores conseqüências – verificou afinidade entre idéias desse autor e suas, passando a divulgá-lo e defendê-lo no meio universitário onde, então, era considerado persona non grata.
Em 1906, enviou a Freud seu livro com as experiências e conclusões em torno da associação de idéias, iniciando-se aí uma correspondência entre os dois. Em 1907, a convite de Freud, foi a casa deste, nascendo aí uma amizade e colaboração que duraram até o rompimento definitivo em 1913, com o aprofundamento de divergências teóricas inconciliáveis.
Carl Gustav Jung desenvolveu o conceito de inconsciente, desdobrando-o em inconsciente pessoal e inconsciente coletivo, a partir de suas experiências e observações. Descobriu e estudou os arquétipos do inconsciente coletivo, material que verificou ser comum aos seres humanos, e que se manifestam através de recursos simbólicos nos mitos e nas figuras míticas de todos os povos. Suas contribuições à compreensão do psiquismo ainda estão sendo desdobradas por psicólogos atuais, graças a proficuidade dos conceitos que elaborou ao longo de sua vida de estudioso pertinaz da alma humana. Um fato importante foi o ter quebrado a rigidez e frieza da relação médico-paciente comum na psicanálise, substituindo-a por uma inter-relação dinâmica e compartilhada, pois ambos se envolvem num processo que não é apenas de “cura” de um – o paciente – mas de desenvolvimento de valores profundos e fundamentais de ambos.
Dentre seus estudos estão aqueles em torno dos fenômenos parapsicológicos, ou mediúnicos, para os quais buscou elaborar uma teoria, a da sincronicidade, em parceria com o cientista e Prêmio Nobel de física Wolfgang Pauli (1900-1958), utilizando-se do princípio de indeterminação ou incerteza [1] de Werner Heisenberg (1901-1976).
Depois de toda uma vida dedicada à descoberta de meios e modos de trazer mais alegria e plenitude ao ser humano, Carl Gustav Jung faleceu no dia 6 de junho de 1961, em Küsnacht, onde foi cremado e suas cinzas depositadas no túmulo da família.


[1] Princípio de mecânica quântica, enunciado em 1929: é impossível discernir simultaneamente e com alta precisão a posição e o momento de uma partícula subatômica.