Djalma Argollo

Djalma Argollo
Terapeuta Junguiano

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Imitatio Crhist - Psicologia e Alquimia

Podemos acusar o cristianismo de retrógrado a fim de desculpar nossas próprias falhas. Não pretendo, porém, cometer o erro de atribuir à religião algo que em primeiro lugar é devido à incompetência humana. Assim pois não me refiro a uma compreensão melhor e mais profunda do cristianismo, mas a uma superficialidade e a um equívoco evidentes para todos nós. A exigência da "imitatio Christi", isto é, a exigência de seguir seu modelo, tomando-nos semelhantes a ele, deveria conduzir o homem interior ao seu pleno desenvolvimento e exaltação. Mas o fiel, de mentalidade superficial e formalística, transforma esse modelo num objeto externo de culto; a veneração desse objeto o impede de atingir as profundezas da alma, a fim de transformá-la naquela totalidade que corresponde ao modelo. Dessa forma, o mediador divino permanece do lado de fora, como uma imagem, enquanto o homem continua fragmentário, intocado em sua natureza mais profunda. Pois bem, Cristo pode ser imitado até o ponto extremo da estigmatização, sem que seu imitador chegue nem de longe ao modelo e seu significado. Não se trata de uma simples imitação, que não transforma o homem, representando assim um mero artifício. Pelo contrário, trata-se de realizar o modelo segundo os meios próprios de cada um - Deo concedente - na esfera da vida individual. Em todo o caso, não esqueçamos que uma imitação inautêntica supõe às vezes um tremendo esforço moral; neste caso, apesar da meta não ser atingida, há o mérito da entrega total a um valor supremo, embora este permaneça externo. Não é impossível que pelo mérito do esforço total a pessoa possa ter o pressentimento de sua totalidade, mediante o sentimento da graça, peculiar a este tipo de vivência.
A concepção inadequada da "imitatio Christi" apenas exterior é reforçada pelo preconceito europeu que distingue a atitude ocidental da oriental. O homem ocidental sucumbe ao feitiço das "dez mil coisas": distingue o particular, uma vez que está preso ao eu e ao objeto, permanecendo insconsciente no que diz respeito às raízes profundas de todo o ser. Inversamente, o homem oriental vivência o mundo das coisas particulares e o seu próprio eu como um sonho, pelo fato de seu ser encontrar-se enraizado no fundamento originá- rio; este o atrai de forma tão poderosa que relativiza sua relação com o mundo, de um modo muitas vezes incompreensível para nós. A atitude ocidental - que dá ênfase ao objeto - tende a relegar o "modelo" de Cristo a seu aspecto objetai, roubando-lhe a misteriosa relação com o homem interior. Este preconceito faz com que, por exemplo, os exegetas protestantes interpretem εντός ύμων (referindo-se ao reino de Deus), como "entre vós" e não "dentro de vós". Nada pretendo dizer sobre a validade da atitude ocidental, já que estamos mais do que persuadidos de sua problematicidade (JUNG, Psicologia e Alquimia, §§ 7-8).