Djalma Argollo

Djalma Argollo
Terapeuta Junguiano

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Esboço Biográfico de C. G. Jung

(Do Livro Jung e a Mediunidade, de Djalma Motta Argollo)

Carl Gustav Jung nasceu em 26 de julho de 1875, em Kesswil, cantão da Turgóvia, uma pequena cidade Suíça, às margens do Lago Constança, acidente geográfico que serve de fronteira entre esse país e a Alemanha. Seu Pai, Johannes Paul Achilles Jung, era pastor protestante e sua mãe, cujo nome de solteira era Emilie Preiswerk é descrita como uma mulher de gênio difícil, autoritária e, o que realmente interessa a esse estudo, médium. Aliás, a mediunidade foi comum na sua família pelo lado materno, Como veremos mais adiante. Seis meses após o nascimento do filho, mudaram-se para o presbitério do castelo de Laufen, perto da cidade de Basiléia, na região das quedas do rio Reno, na sua margem Suíça. Quatro anos mais tarde, em 1879, uma nova mudança aconteceu: agora para Klein-Hüningen, próximo à Basiléia. Ali, em 1884, nasceu Johanna Gertrud, irmã de Jung que veio a falecer em 1935.
Da mãe, ele guardava uma imagem terna, cheia de admiração:

Minha mãe foi extremamente boa para mim. Ela irradiava um grande calor animal: era corpulenta, extremamente simpática. Sabia ouvir e gostava de conversar, num alegre murmúrio de fonte. Tinha evidentes dons literários, bom gosto, profundidade. Tais qualidades, entretanto, não se manifestavam exteriormente; permaneciam ocultas numa velha senhora gorda, muito hospitaleira, que cozinhava muito bem e tinha muito senso de humor (Jung, 1997, p. 54).

O pai de Jung permanece em suas lembranças como um homem bom, embora de personalidade fraca, sem grandes ambições na vida, um Pastor sem fé no que pregava, o que lhe causava terríveis conflitos íntimos. Na adolescência de Jung, pai e filho tinham muitas e acerbas discussões. Com a morte do pai, Jung, já na universidade, assumiu o posto de chefe de família. Ele narra que a personalidade número 2 (provável interferência mediúnica) de sua mãe lhe disse algum tempo depois: “Ele desapareceu na hora certa para você”; isto parecia significar: “Vocês não se compreendiam e ele poderia ser um obstáculo para você” (Jung, 1997, p. 92). Por aí se pode perceber o clima emocional atribulado naquela família.
Jung foi, durante a infância, perturbado por conflitos, ansiedades e temores. Os pesadelos eram freqüentes e, também, sofreu inúmeros acidentes, que atribuiu em suas memórias a um desejo inconsciente de suicídio.
As crises de dupla personalidade que o assaltavam desde a mais remota infância, batizadas como personalidade 1 e personalidade 2, podem ter como origem a intromissão de lembranças de vidas pretéritas, como sua autobiografia leva a suspeitar, ou a um processo obsessivo com origem em mentes espirituais em desequilíbrio, conforme os ensinos espíritas.
Até sua juventude, o cotidiano de Jung caracterizou-se também por grave crise religiosa, fruto de problemas que devia trazer no inconsciente, aguçados, ou até mesmo estimulados, pela atitude paradoxal de seu pai ser um Pastor sem fé, o que naturalmente o levava a viver um insolúvel dilema existencial. Suas fantasias e sonhos denunciavam esses conflitos.
Aos onze anos, em 1886, ingressou no Liceu de Basiléia, onde realizou seus estudos preparatórios, o que denominamos de primeiro e segundo graus. Desde muito cedo, Jung apresentou intensa curiosidade intelectual, transformando-se num leitor assíduo e de múltiplos interesses, o que lhe proporcionou acumular vasto cabedal de informações, as quais se demonstraram de grande valor em seu trabalho posterior.
Sua vida de colegial foi marcada por atritos com colegas e professores, sendo que estes últimos não conseguiam reconhecer-lhe a genialidade precoce, atribuindo suas dissertações bem elaboradas a plágios ou cópias, o que muito o amargurava.
Quando teve de se definir por uma carreira de nível superior, Jung se dividiu entre a arqueologia e as ciências naturais. Terminou por escolher a medicina, curso que iniciou em 18 de abril de 1895. Ainda nesse ano, fazendo parte da confraria estudantil Zofingia – à qual seu pai pertencera na época de estudante – sobressaía pelas exposições e debates sobre as idéias de Mesmer, Swedenborg, Lombroso (1835-1909) e Schopenhauer. Apontava as falhas da filosofia materialista e defendia o estudo científico dos então chamados “fenômenos psíquicos”. No ano seguinte à sua entrada na universidade, faleceu-lhe o pai.
Entre 1896 e 1899, proferiu cinco palestras na Fraternidade Zofingia, sendo a primeira sobre os fenômenos do espiritismo, como será detalhado mais adiante. E, entre 1898 e 1900 participou de reuniões mediúnicas com familiares, tendo como médium sua prima de 15 anos Hélène Preiswerk.
Em 1900, depois da leitura do Manual de Psiquiatria de Kräfft-Ebing, decidiu-se pela especialização nessa área. No mês de dezembro do mesmo ano, assumiu o lugar de assistente no hospital de Burghölzli, em Zurique. Nesse ano cumpriu, também, seu primeiro período de serviço militar. Em 1902 publicou sua tese de doutorado: “Sobre a Psicologia e Patologia dos Fenômenos Chamados Ocultos”.
No Hospital Psiquiátrico do Cantão de Zurique, entre 1902 e 1906, desenvolveu com alunos e colegas estudos sobre associação de idéias, independentemente das construções teóricas de Freud a esse respeito, provando cientificamente sua validade para a descoberta dos complexos - termo que criou – da psiquê. Estes estudos lhe valeram um convite para apresentá-los na Clark University, nos Estados Unidos, em 1909, onde foi agraciado com o título de doutor honoris causa. No período em que trabalhou naquele hospital, Jung desenvolveu notáveis estudos em torno da esquizofrenia, principalmente no que diz respeito às personalidades múltiplas, que os psicanalistas negaram por muito tempo, e que acabaram sendo reconhecidas como uma realidade, e não criações enganadoras de pacientes mitômanos.
Em 14 de fevereiro de 1903 Jung casou-se com Emma Rauschenbach, com quem veio a ter cinco filhos. Nesse mesmo ano, relendo a Interpretação dos Sonhos, de Freud – lido por ele três anos antes sem maiores conseqüências – verificou afinidade entre idéias desse autor e suas, passando a divulgá-lo e defendê-lo no meio universitário onde, então, era considerado persona non grata.
Em 1906, enviou a Freud seu livro com as experiências e conclusões em torno da associação de idéias, iniciando-se aí uma correspondência entre os dois. Em 1907, a convite de Freud, foi a casa deste, nascendo aí uma amizade e colaboração que duraram até o rompimento definitivo em 1913, com o aprofundamento de divergências teóricas inconciliáveis.
Carl Gustav Jung desenvolveu o conceito de inconsciente, desdobrando-o em inconsciente pessoal e inconsciente coletivo, a partir de suas experiências e observações. Descobriu e estudou os arquétipos do inconsciente coletivo, material que verificou ser comum aos seres humanos, e que se manifestam através de recursos simbólicos nos mitos e nas figuras míticas de todos os povos. Suas contribuições à compreensão do psiquismo ainda estão sendo desdobradas por psicólogos atuais, graças a proficuidade dos conceitos que elaborou ao longo de sua vida de estudioso pertinaz da alma humana. Um fato importante foi o ter quebrado a rigidez e frieza da relação médico-paciente comum na psicanálise, substituindo-a por uma inter-relação dinâmica e compartilhada, pois ambos se envolvem num processo que não é apenas de “cura” de um – o paciente – mas de desenvolvimento de valores profundos e fundamentais de ambos.
Dentre seus estudos estão aqueles em torno dos fenômenos parapsicológicos, ou mediúnicos, para os quais buscou elaborar uma teoria, a da sincronicidade, em parceria com o cientista e Prêmio Nobel de física Wolfgang Pauli (1900-1958), utilizando-se do princípio de indeterminação ou incerteza [1] de Werner Heisenberg (1901-1976).
Depois de toda uma vida dedicada à descoberta de meios e modos de trazer mais alegria e plenitude ao ser humano, Carl Gustav Jung faleceu no dia 6 de junho de 1961, em Küsnacht, onde foi cremado e suas cinzas depositadas no túmulo da família.


[1] Princípio de mecânica quântica, enunciado em 1929: é impossível discernir simultaneamente e com alta precisão a posição e o momento de uma partícula subatômica.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

A história do rato saltador (início)

Pequena introdução 

O inconsciente é fonte de lições profundas que servem de orientação às deliberações das consciências individuais ou coletivas. O conto a seguir, saído do imaginário dos índios norte-americanos é um precioso exemplo da ação do inconsciente coletivo dos nativos americanos, que Jung teve oportunidade de estudar, quanto esteve naquele pais, a convite, para ser premiado academicamente pelas suas experiências com associações de palavras, que levou à descoberta doa "complexos de tonalidade afetiva. 
Observe-se bem que no conto os arquétipos aparecem em forma animal, e como aparece o problema da individuação, na forma de busca da "montanha mágica".
Assim como na vida, as buscas exigem esforços e sacrifícios do que normalmente é um bem considerado extremamente precisos. Neste conto encontramos afinidades com os mitos gregos, como por exemplo, o mito de Édipo  cuja necessidade de encontrar suas respostas, forçou-o a mergulhar no próprio íntimo, evitando o ofuscamento da luz natural. É o mesmo que podemos encontrar no mito de Tirésias, cuja que foi obrigado, à sua revelia, a adquirir a visão que transcende o tempo e o espaço.
Verificamos que, em última análise, o conto diz respeito ao "processo de individuação" os arquétipos envolvidos são representados por animais, como o Búfalo que lembra o Touro, é representado na  forma de Bisão, desde a Pré-história, nas pinturas das cavernas, usadas pelo Homo Sapiens, como trois Frere, Altamira, Fontechevade etc. E por toda História a mesma espécie aparece como símbolo da força e do poder criativo. 
Na Grécia é o presente de Posídon, na Ilha de Creta, que da origem ao Minotauro, graças à paixão terofílica de Pasifae, esposa de Minos. Na religião mitráica, ele representa a divindade que se sacrifica pelo bem do homem, e cujo sangue purifica. 
No Antigo Testamento fornece o ídolo que o povo hebreu passa a adorar, na ausência de Moisés, que subira ao Sinai para receber os Mandamentos divinos. No Cristianismo, o Boi, que é da mesma espécie do Touro, representa o evangelista Lucas.
Até recentemente, ele era enfrentado nas arenas, servindo de sparring para que o homem demonstrasse ser o mais poderoso do animais. 
Agora, mergulhe seus olhos neste conto e deixe sua imaginação lhe apontar qual lição específica ele traz para sua vida, e como pode modificar o seu destino. 



Lenda de Índios Norte-Americanos

Era uma vez um rato. Era um rato ocupado, buscando em toda parte... e olhando. Ele era ocupado como são todos os ratos, ocupado com coisas de ratos. Mas um dia, ele ouviu um som singular. Levantou a cabeça, esforçando-se por enxergar... e surpreendeu-se. Um dia correu até um rato seu conhecido e perguntou-lhe:
- Você está ouvindo um rugido em suas orelhas, meu irmão?
- Não, não. – Respondeu o outro rato sem tirar o seu nariz atarefado do solo. – Não ouço nada. Agora estou ocupado. Fale comigo depois.
Ele fez a outro rato a mesma pergunta e o rato olhou-o com estranheza. (continua)

A história do rato saltador (Continuação)

- Está louco? Que som? – perguntou, escorregando para um buraco em um choupo caído.
O pequeno rato meneou seus bigodes e ocupou-se novamente, decidido a esquecer o assunto. Mas ele ouviu novamente o rugido. Era um rugido fraco, muito fraco, mais estava lá! Um dia ele decidiu investigar o som, um pouquinho só. Deixando os outros ratos atarefados, afastou-se um pouco e voltou a ouvir. Lá estava! Ele estava escutando quando, de repente, alguém disse “olá”.
- Olá, irmãozinho – disse a voz, e o rato quase saltou de sua pele. Arqueou as costas e o rabo, preparando-se para fugir em disparada.
- Olá – repetiu a voz – Sou eu, o irmão guaxinim. – E era mesmo! – O que você está fazendo aqui sozinho, irmãozinho? – perguntou o guaxinim.
O rato corou, e levou o nariz quase até o solo.
- Ouvi um ruído em minhas orelhas e resolvi investigar – respondeu timidamente.
Um ruído em suas orelhas? – repetiu o guaxinim – O que está ouvindo, irmãozinho, é o rio.
- O rio... O que é um rio?
- Venha comigo e eu lhe mostrarei o rio - disse o guaxinim.
O ratinho estava morrendo de medo, mas estava decidido a descobrir de uma vez por todas o que era aquele ruído. “Posso voltar ao meu trabalho”, ele pensou, “depois de resolver essa coisa, e talvez essa coisa me ajude em meu trabalho de análise e coleta. E meus irmãos todos disseram que não era nada. Vou mostrar a eles. Vou pedir ao guaxinim para retornar comigo, e eu terei a prova.”.
- Está bem, guaxinim, meu irmão – disse o rato. – Leve-me até o rio. Vou com você.
O ratinho acompanhou o guaxinim. Seu coraçãozinho batia forte em seu peito. O guaxinim conduziu-o por caminhos desconhecidos, e o ratinho sentiu o cheiro de muitas coisas que passaram por seu caminho. Muitas vezes teve tanto medo que quase retrocedeu. Finalmente, chegaram ao rio! Era enorme e surpreendente, profundo e cristalino em alguns pontos, e sombrio em outros. O ratinho não conseguia ver o outro lado, porque ele era grande demais. Trovejava, cantava, bradava e retumbava em sua trajetória...que me aconteceu.
- Vá, então – disse o sapo – Voltar para o seu povo... Guarde o som do rio feiticeiro no fundo da sua cabeça...
Rato Saltador retornou ao mundo dos ratos. Mas encontrou a decepção. Ninguém queria ouvi-lo. E como ele estava molhado e não podia explicar por quê, já que não havia chovido, muitos dos outros ratos ficaram com medo dele. Achavam que ele tinha sido cuspido por outro animal que tentara comê-lo. E todos sabiam que se ele não tinha servido de alimento para alguém que o quisera, então ele devia ser um veneno também para eles.
Rato Saltador voltou a viver com seu povo, mas não conseguia esquecer a visão das Montanhas Sagradas.
A lembrança ardia na mente e no coração do Rato Saltador, e um dia ele foi até a fronteira do... local dos ratos e olhou para o pradaria. Viu as águias do céu, que estava cheio de pontos, cada ponto uma águia e tomou a decisão de ir até as Montanhas Sagradas. Reuniu toda a sua coragem e correu o mais rápido que pode até a pradaria. Seu coraçãozinho retumbava de excitação e medo.
Correu até chegar ao canteiro do sábio. Estava descansando e tentando controlar sua respiração quando viu um velho rato. O canteiro do sábio... era um asilo para ratos. Havia ali muitas sementes e material de ninho, além de muitas coisas com as quais se ocupar. (continua)

A história do rato saltador (continuação)

O ratinho aproximou-se da água e olho para dentro dela. Viu um rato assustado refletido na superfície.
- Quem é você? – o ratinho perguntou ao reflexo. – Não tem medo de entrar neste rio?
- Não – respondeu o sapo – Não tenho medo. Recebi o dom, desde o nascimento, de viver dentro e fora do rio. Quando chega o inverno e congela essa feitiçaria, não posso ser visto. Mas enquanto voa o inseto, eu estou aqui. Para visitar-me, é preciso vir quando o mundo está verde. Eu, meu irmão, sou o defensor da água.
- Impressionante – exclamou o ratinho, novamente sem encontrar palavras.
- Gostaria de ter algum poder da feitiçaria – perguntou o sapo.
Poder da feitiçaria? – repetiu o ratinho. – Sim, sim! Se for possível.
- Então, abaixe-se o mais que puder, depois salte o mais alto que for capaz. Você terá sua feitiçaria – disse o sapo.
O ratinho obedeceu as instruções. Abaixou-se o máximo e saltou. Neste momento, seus olhos viram as Montanhas Sagradas.
O ratinho mal podia acreditar em seus olhos. Mas lá estavam elas! Então caiu de novo na terra, e no rio!
O ratinho ficou assustado e voltou atabalhoadamente para a margem. Estava molhado, e quase mortalmente apavorado.
- Você me enganou! – o ratinho gritou para o sapo.
 - Espere – disse o sapo – Você não se machucou. Não deixe que o medo ou a raiva o ceguem. O que você viu?
- Eu - gaguejou o rato -, eu, eu via as Montanhas Sagradas!
- E você tem um novo nome! – disse o sapo. – É Rato Saltador.
- Obrigado. Obrigado. – Rato Saltador agradeceu. – Quero voltar para o meu povo e contar a eles o - Olá – disse o velho rato. – Seja bem vindo.
Rato Saltador ficou surpreso. Aquele lugar... e aquele rato...
- Você é realmente um grande rato. - disse Rato Saltador com todo o respeito. - Este lugar é realmente maravilhoso. E as águias não podem vê-lo aqui - acrescentou.
- Sim – disse o velho rato –, e daqui se pode ver todos os animais da pradaria: o búfalo, o antílope, o coelho, e o coiote. E possível ver todos eles daqui e saber seus nomes. (Continua)

A história do rato Saltador (continuação)

- Isto é maravilhoso, disse Rato Saltador. – Você também pode ver o rio e as Grandes Montanhas?
- Sim e não. – o velho rato falou com convicção - Sei que existe o Grande Rio, mas temo que as Grandes Montanhas sejam apenas um mito. Esqueça seu desejo de vê-las e fique aqui comigo. Aqui temos tudo que você quiser e é um bom lugar para viver.
"Como ele pode dizer uma coisa dessas?", pensou Rato Saltador. "A feitiçaria das Montanhas Sagradas não pode ser esquecida.”
- Muito obrigado pela refeição que você compartilhou comigo, velho rato, e também por oferecer-me seu grande lar – disse Rato Saltador –, mas devo buscar as Montanhas Sagradas.
- Você é um rato tolo por sair daqui. Há perigo na pradaria! Veja todos aqueles pontos! São águias, e elas vão pegá-lo!
Foi difícil para Rato Saltador partir, mas ele reuniu sua determinação e voltou a correr. O terreno era acidentado... ele podia sentir as sombras dos pontos às suas costas enquanto corria. Todos aqueles pontos!
Ele estava investigando seu novo ambiente quando ouviu uma respiração muito pesada. Rapidamente Investigou o som e descobriu sua origem. Era um grande tufo de pelos com chifres pretos. Era um grande búfalo. Rato Saltador mal podia acreditar na grandiosidade do ser que viu deitado à sua frente. Era tão grande que Rato Saltador poderia entrar em um de seus grandes chifres. "Que ser um magnífico", pensou Rato Saltador, e aproximou-se mais.
- Olá, meu irmão – disse o búfalo. – Obrigado por visitar-me.
- Olá, Grande Ser. Por que você está deitado aqui?
- Estou doente e estou morrendo – disse o búfalo. – E o rio feiticeiro me disse que apenas o olho de um rato pode curar-me. Mas, irmãozinho, não existe um rato.
Rato Saltador ficou chocado. "Um de meus olhos!", ele pensou, "um dos meus minúsculos olhos." Voltou correndo para o canteiro de cerejeiras. Mas a respiração era cada vez mais difícil e lenta.
“Ele vai morrer”, pensou Rato Saltador. “Se eu não lhe der meu olho. Ele é um ser grandioso demais para que o ‘deixem morrer’.”
Voltou ao lugar onde o búfalo estava deitado.
- Eu sou um rato – disse a voz trêmula. – E você meu irmão, é um Grande Ser. Não posso deixá-lo morrer. Tenho dois olhos, você pode ficar com um deles.
Tão logo disse essa palavras, o olho de Rato Saltador saiu de sua cabeça e o búfalo ficou bom. O búfalo pôs-se de pé de um salto, sacudindo todo o universo do Rato Saltador. (Continua)

A história do rato Saltador (continuação)

- Obrigado, meu irmãozinho – disse o búfalo. – Sei que você está buscando as Montanhas Sagradas e sei de sua visita ao rio. Você me deu a vida para que eu possa dá-la ao povo. Eu serei seu irmão para sempre. Corra sob meu ventre e eu o levarei diretamente ao sopé das Montanhas Sagradas, e você não precisará ter medo dos pontos. As águias não poderão vê-lo enquanto estiver correndo debaixo de mim. Só verão o lombo de um búfalo.
O ratinho correu por debaixo do búfalo, seguro e protegido contra os pontos, mas com um único olho e assustado. Os grandes cascos do búfalo sacudiam todo seu mundo a cada passada. Finalmente eles chegaram a um local, e o búfalo parou.
- Aqui devo deixá-lo, irmãozinho – disse o búfalo...
Rato Saltador imediatamente pôs-se a investigar o novo ambiente. Ali havia mais coisas que nos outros lugares. Coisas mais ativas e uma abundância de sementes e outras coisas que os ratos apreciam... De súbito ele encontrou um lobo cinzento, que estava sentado ali fazendo absolutamente nada.
- Olá, irmão Lobo – disse o Rato Saltador.
Os olhos do lobo tornaram-se atentos e brilharam.
- Lobo! Lobo! Sim, isto é o que sou, eu sou um lobo! – mas sua mente voltou a ficar confusa, e novamente ele se sentou em silêncio, completamente esquecido de quem era. A cada vez que Rato Saltador lembrava quem ele era, o lobo mostrava-se entusiasmado com a notícia, mas logo voltava a esquecer.
- Que grande ser – pensou Rato Saltador -, mas ele não tem memória.
Rato Saltador foi até o centro do novo local e manteve silêncio. Ouviu por um longo tempo as batidas de seu coração. Então, repentinamente, tomou uma decisão. Voltou correndo para onde o lobo estava sentado e falou.
- Irmão lobo! – disse Rato Saltador...

- Lobo! Lobo! – exclamou o lobo... (continua)

A História do rato saltador (final)

- Por favor, irmão lobo – disse Rato Saltador – Por favor, ouça-me. Eu sei o que pode curá-lo. E um de meus olhos. E quero dá-lo a você. Você é um ser maior que eu. Eu sou apenas um rato. Por favor, tome-o.
Mal o rato disse essas palavras, seu olho saiu de sua cabeça e o lobo ficou bom.
Lágrimas caiam pelas bochechas do lobo, mas seu irmãozinho não podia vê-las, pois agora estava cego.
Você é um grande irmão – disse o lobo. – Agora tenho minha memória, mas agora você está cego. Eu sou o guia para as Montanhas Sagradas. Eu o levarei até lá. Lá há um grande lago medicinal. O lago mais belo do mundo. O mundo inteiro está refletido ali. As pessoas, as habitações das pessoas, e todos os seres das pradarias e dos céus.
- Por favor, leve-me até lá – disse o Rato Saltador.
O lobo conduziu-o através dos pinheiros até o lago medicinal. Rato Saltador bebeu a água do lago. O lobo descreveu-lhe toda a beleza do lugar.
- Agora tenho de partir – disse o lobo –, pois preciso retornar para que possa guiar os outros, mas permanecerei com você sempre que desejar.
- Obrigado, meu irmão – disse Rato Saltador – Mas embora eu esteja assustado por estar sozinho, sei que você deve partir para mostrar aos outros o caminho para este lugar.
Rato Saltador sentou-se, tremendo de medo. Não adiantava correr, pois ele estava cego, embora soubesse que uma águia o encontraria ali. Sentiu uma sombra às suas costas e ouviu o ruído que fazem as águias. Preparou-se para o choque. E a águia atacou! Rato Saltador adormeceu.
Quando despertou, a surpresa de estar vivo foi grande, mas agora ele estava enxergando!
Tudo estava indistinto, mas as cores eram belas.
 - Posso ver! Posso ver! – disse Rato Saltador.
Uma forma enevoada aproximou-se de Rato Saltador. Ele tentou enxergar melhor, mas continuou vendo uma mancha apenas. Olá irmão, disse uma voz. – Quer um pouco de feitiçaria?
Feitiçaria para mim? – perguntou Rato Saltador. – Sim! Sim!
- Então, abaixe-se o mais que puder – disse a voz – e salte o mais alto que conseguir.
Rato Saltador obedeceu às instruções. Agachou-se o máximo e saltou! O vento colheu-o e levou-o para o alto.
- Não tenha medo – disse a voz. – Agarre-se ao vento e tenha confiança!
Rato Saltador obedeceu. Fechou os olhos e agarrou-se ao vento, que o levou mais e mais para o alto. Rato Saltador abriu os olhos e eles estavam límpidos, e quanto mais alto ele subia, mas límpidos tornavam-se seus olhos. Rato Saltador viu seu velho amigo sobre um canteiro de lírios no belo lago medicinal. Era o sapo.
- Você tem um novo nome – disse o sapo – Você é uma Águia!

Versão publicada em A Sabedoria do Mundo, de Philip Novak