Djalma Argollo

Djalma Argollo
Terapeuta Junguiano

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Instante terapêutico


Um dia, há cinco anos, fui procurado na clínica por uma jovem que havia marcado uma sessão terapêutica. Estava acompanhada por um moço nos inícios de seus trinta anos, alto, com o corpo bem delineado de quem faz constantes exercícios. Nos seus 1,80 m,  era um homem bonito. 
Ela, com 25 anos, era uma bonita mulher! Alta, e com a estatura aumentada mais ainda pelos sapatos de salto alto, chamava a atenção sobre si, onde quer que se apresentasse; os cabelos enlourecidos, compridos e escovados, caiam até o nível das omoplatas. 
No rosto brilhavam os grandes e lúcidos olhos verdes, em cujas palpebras os cílios se alongavam elegantemente. 
Estava impecavelmente  maquiada, mas sem exageros. As unhas bem feitas, pintadas de vermelho rubro, combinavam com o batom dos lábios cheios e bem desenhados, aspeados por duas graciosas covinhas que se formavam quando sorria. 
Seu corpo era formado por curvas bem feitas num todo harmonioso, e sua pele muito alva  mostrava que não era uma pessoa de se expor ao sol, por muito tempo. 
Irradiava sensualidade num vestido "tomara que caia", que lhe delineava as formas, e um blaise lhe protegia os ombros desnudos. Era elegante e desenibida.
O horário estava marcado com o nome dela. O rapaz, porém, pediu para falar reservadamente comigo, antes do atendimento.
Repliquei-lhe que em minha agenda constava o nome da jovem, e não o dele. Nesse momento ela interveio dizendo que não havia problema, pois haviam acertado assim, antes. Em vista disso, aquiesci.
Uma vez em minha sala, disse-me que namorava a moça há algum tempo, na capital onde moravam, mas que ela se mudara para Salvador, e ele estava aqui com o objetivo de fazê-la retornar, pois a amava muito, e sofria com sua ausência. Contou que era evangélico e desejava casar-se com ela. Inclusive, estava muito preocupado, pois, ela não estava bem; acordava no meio da noite gemendo ou gritando por causa de pesadelos terríveis. Vivia irritadiça, e pensava que se ela voltasse para a  terra natal, tudo passaria, pois aqui vivia isolada, longe das amizades e parentes...
Escutei-o, mas esclareci que meu objetivo como terapêuta seria verificar os problemas e necessidades que ela me apresentasse, e não "fazer-lhe a cabeça" para atender o que me pedia. Ele mostrou seu desapontamento de imediato, no rosto, e se despediu de mim, enquanto eu ia buscá-la, para o atendimento.
Muitos maridos, namorados, pais etc., tentam usar o psicoterapêuta para manipular as pessoas que lhe estão vinculadas. Mas ele tem compromisso, exclusivamente, com o analisando. Pode chegar a envolver as pessoas diretamente ligadas a ele, quando isso venha em seu benefício, e com sua concordância explicita. Exceto em situações especiais, como iminência de suicídio ou crime, o terapêuta não pode deixar que outros interfiram na sua relação com o analisado, e deve comunicar a este qualquer tentativa nesse sentido. Terapia é uma questão de confiança, que não pode ser quebrada.
Quando comecei a atender a jovem, ela colocou que estava vivendo um momento de desequilíbrio. Contou que passava por mudanças de humor, tinha crises de raiva, e algumas vezes chorava sem qualquer motivo. 
Relatou-me sonhos onde ficava claro a existência de um conflito moral muito forte denunciando que o inconsciente procurava compensar um consciente por demais unilateralizado. 
Num sonho recorrente, era perseguida por populares, que a denegriam, atirando-lhe todo tipo de coisas nojentas, inclusive fezes; na fuga caia em pântanos e sufocava na lama, acordando a  se debater, apavorada, com o coração palpitando loucamente. Por causa dos repetidos pesadelos começara a ter medo de dormir. Comprara por conta própria, e a leniência de balconista de farmácia, seu conhecido, remédios para dormir, os quais somente faziam efeito em dosagens fortes. Mesmo assim, ingeria logo dois, com bebida alcoólica, para dinamizar o efeito.  No início os pesadelos foram bloqueados, mas agora ja começavam a acontecer novamente, e sentia a necessidade de aumentar a dose para três comprimidos. Isso sinalizou para mim um processo autodestrutivo que poderia culminar em suicídio. Ao mesmo tempo, o sonho que contara me conduziu a uma associação com a letra de uma música de Chico Buarque de Holanda, inspirada no célebre conto "Bola de Sebo" de Guy de Maupassant, que é sobre uma prostituta, durante a guerra franco-prussiana.
Como chegara muito tensa, eu a deixara falar livremente, para que se acalmasse. Mas, neste ponto, resolvi confirmar uma suspeita que se levantava em meu espírito, e perguntei-lhe a profissão, tendo ela respondido prontamente:
- Garota de programa.
Indaguei-lhe  quando e por que escolhera essa profissão. Disse-me que aos dezoito anos tornara-se modelo e durante os eventos de que participava passou a ser assediada por homens ricos e altos executivos. No início resistira, mas as responsáveis pelos desfiles, e colegas, passaram a incentivá-la a aceitar os encontros remunerados, listando as vantagens financeiras da atividade. Tendo saído uma vez com um grande empresário, ganhara expressiva quantia e uma jóia valiosa.  Concluíra que, daquela forma, ganharia muito mais do que como modelo, pois não era nenhuma "top". Inclusive me disse, sem entrar em detalhes, que no meio isso é muito comum, o que interiormente lamentei. Ao mesmo tempo, me levou a meditar nos inúmeros meios de incentivo à prostituição, aparentemente legais, que existem no mundo hoje em dia.
Perguntei-lhe sobre a reação da família e ela disse ser filha única. Seu pai morrera quando tinha doze anos. Morava com a mãe em sua cidade, antes de vir para Salvador. Inclusive ela estava naquele momento com ela, passando uns dias. Perguntei-lhe sobre a atitude dela em relacão ao seu trabalho, e ela respondeu que a mesma não interferia. E que ela, como boa filha, a mantinha com todo conforto, "não deixando lhe faltar nada", pontuava com orgulho.
Nesse ponto, passou a me comunicar sensações e sentimentos  que lhe estavam ocorrendo. Quando entrava num local e as pessoas em volta se afastavam, ela imaginava que faziam isso por ela ser garota de programa. Sentia-se discriminada quando não a atendiam de imediato nos estabelecimentos onde ia fazer compras... O conflito moral ficava patente. Inquirindo quando os sintomas se apresentaram, foi-me respondido que há dois meses. Perguntei-lhe o que acontecera por essa época, para deslanchar os sintomas que apresentava. Não lhe vinha nada à mente.
Perguntei-lhe, então sobre o rapaz que se apresentara como seu namorado. E ela me confirmou que o era há um ano. Começara com um "freguês', mas evoluíram para um namoro. No início ele aceitara sua profissão, mas depois começara a ter crises de ciúmes, por isso ela se mudara para Salvador para que ele não prejudicasse sua atividade. Mas ele ligava constantemente pedindo para que voltasse e.. Nesse momento ela disse:
- Lembrei agora que, há dois meses, ele pediu-me em casamento. 
Ficara surpresa e, no ato, lhe vieram à mente seus sonhos juvenis de se casar e ter filhos. Mas cairá em si, pois isso lhe tiraria seu trabalho e o rapaz, apesar de ter um bom salário, como profissional liberal que era, não poderia lhe dar o estilo de vida a que já havia se acostumada como garota de programa de homens ricos
Ele, todavia, vinha assediando-a, insistindo em sua proposta, o que a irritava muito. Nesse instante refletiu um pouco e perguntou se essa seria a origem dos problemas que estava passando.
Como terapeuta lhe devolvi:
- O que você acha?
Ela respondeu que não conseguia ver o nexo entre o pedido dele e os sintomas que lhe estavam acontecendo.
Nesse ponto, levei-a a raciocinar sobre o problema moral que nela se havia estabelecido: os sonhos de casamento que acalentara, e que é normal em todas as mulheres e homens, que o pedido inesperado fizera emergir, e a renuncia à vida de luxo que teria de fazer, abrindo mão da atividade que exercia. A vida a colocava diante de uma escolha e, fosse qual fosse a que fizesse, teria de lidar com as consequências que adviriam.
Ela então fez a clássica pergunta:
- O que você acha que devo fazer? 
Respondi-lhe de pronto:
- Não tenho a mínima idéia! Essa escolha é sua, e somente sua! É sua vida, sua jornada heróica. Seu futuro, sua existência, depende dessa escolha, e ninguém tem o direito de interferir. É de sua exclusiva responsabilidade.
Seus belos olhos verdes encheram-se de lágrimas que ficaram ali paradas, sem se decidirem a cair.
Levantei-me comunicando que o tempo se esgotara, e eu tinha outro paciente a atender.  Cumprimentamo-nos em despedida. Ela saiu, e me veio à mente enquanto a via caminhar para a recepção, a figura de uma ninfa assediada por faunos enlouquecidos de testosterona...
Nunca mais a vi. 
Às vezes me pego pensando: "qual terá sido sua escolha? E o que ela lhe trouxe?". Pois, como lhe disse, eu não tinha, e continuo sem ter, a menor idéia de qual seria a melhor escolha para sua existência... E quando meus preconceitos tentam me impor uma solução, os repilo no ato. Afinal não me sinto um Tirésias, a quem Zeus outorgou a visão do futuro, compensando a visão física que a raiva de Hera arrebatara-lhe.
Outro ponto do drama me fez pensar na variedade de escolhas que os seres humanos fazem, e que ditam cirunstâncias existenciais tão diversas que transformam os destinos num caleidoscópio em perpétua mutação: um rapaz evangélico, com uma crença extremamente rígida e repressiva, busca, contra seus princípios, manter relações com prostitutas, o que lhe é proibido terminantemente por sua fé. E, o mais interessante,  apaixonar-se por uma, querendo torná-la sua esposa. Uma verdadeira enantiodromia: o choque dos contrários. 
O inconsciente está na base das escolhas existenciais, não há que duvidar. Imaginando os dois em intimidade, vem-me à mente a imagem do Tao Chi; mas, no caso, qual o yin e qual o yang? O que é necessário que eles aprendam,  para o processo de individuação que estão desenvolvendo?
O psicoterapeuta deve manter eterna vigilância sobre seus preconceitos e moralismo. Não lhe cabe impor sua visão de mundo ao paciente, nem condenar-lhe a maneira de ser e viver. Por mais difícil que seja, deve exercitar a "neutralidade axiológica" ao máximo. É claro que nem sempre vai conseguir. A contra-transferência sempre se apresenta, e impõe ao analista a necessidade de buscar auxílio, seja em supervisão, seja em análise. Os pacientes são permanentes desafios à sua sombra. A análise é biunívoca: na medida em que se analisa, também se é analisado. A história do paciente, suas dificuldades, problemas e conflitos fazem aflorar emoções e sentimentos semelhantes no terapeuta. Muitas vezes um se torna o espelho do outro.
Todo psicoterapêuta é um Quiron: um ferido curando feridas dos outros, um doente medicando doentes. Enfim, um ser humano ajudando outros seres humanos a solucionar problemas humanos.