Djalma Argollo

Djalma Argollo
Terapeuta Junguiano

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Jesus: do homem ao mito

Desde o início o Mestre foi motivo de escândalo. Perseguido sistematicamente pela liderança da religião que ele mesmo praticava, terminou sendo por ela executado, pelo único crime de ser bom, digno e amorável.
Seus próprios discípulos se tornaram um problema, desde o momento em que estava com eles. Picuinhas, ciúmes e invejas marcaram todo o período de apostolado dos seus doze principais seguidores. Após sua morte, as contradições se intensificaram. De um lado, os seguidores palestinos de Jesus, ortodoxos, que defendiam ser necessário a todos os candidatos a entrar para a comunidade dos seguidores do nome, se converterem primeiramente ao Judaísmo, passando a cumprir todas as determinações e preceitos da Tôrah, começando pela circuncisão; do outro, os discípulos liberais, normalmente judeus da diáspora, como os “helenistas”, chefiados por Estevão, para os quais bastava apenas para o candidato aceitar Jesus, e seguir seus ensinos.
Paulo de Tarso, após sua conversão, tornou-se o lider dos liberalizantes. Suas viagens de divulgação dos Evangelhos se tornaram o ponto de origem de um novo movimento religioso, que empolgou porções dos habitantes da Ásia Menor: o Cristianismo, o qual terminou por abafar o judeu-cristianismo, fazendo-o desaparecer completaente, junto com suas pretensões de fazer do movimento inciado por Jesus uma simples seita judaica.
Até aí as disputas eram sobre as condições de discipulado e do direito de ser discípulo do Mestre. Em seu bojo, todavia, outra questão estava sendo gerada. Não sendo necessário assumir a condição de seguidor de Moisés, para se fazer discípulo de Jesus, os dois ficavam equiparados do ponto de vista da hierarquia espiritual.
Este me parece o conceito defendido pelos “helenistas”. Mas, com a crescente adesão de pessoas oriundas do politeísmo ao movimento cristão, uma mudança se realizou. Como não possuíam vínculos emocionais com o Judaísmo, para eles Moisés significava, no máximo, um grande profeta, um legislador. Jesus, todavia, era o Filho de Deus, enquanto o libertador do Povo Hebreu, não.
Estabelecida esta posição, outra se pôs: como poderia um simples homem fazer curas, ressurreições de mortos, multiplicação de pães e andar sobre as águas? Além do mais, qual o mortal que anunciou seu retorno à vida, depois da morte, realizando-se a predição como aconteceu? Conclusão lógica, bem mais do que uma criatura especial: o Filho de Deus era, na verdade, o próprio Deus encarnado. Assim, a educação politeísta dos discípulos não judeus terminou por recriar, por vias indiretas, a crença tradicional que morava em seus inconscientes. Daí à reconstrução do Panteão dos antigos deuses, sob nova roupagem, foi mera questão de tempo.
Gradualmente, Jesus, o Homem de Nazaré, foi deificado, passando a ser uma insólita figura de duas faces: uma, tipicamente humana, condicionada à cultura de seu tempo, sofrendo e chorando como todos nós; um simples mortal que se dirigia a Deus em pedidos de socorro e proteção. Este é encontrado nos Evangelhos, mesmo no de João, o qual defende a tese da deificação de Jesus a outra face: Deus corporificado, vindo sentir de perto os problemas enfrentados pela sua maior criatura: o ser humano. Um Deus com um problema de dupla personalidade, pois, esquecendo-se de quem era, chama-se de Pai, e olvidando que estava tanto no Céu como na Terra, simultaneamente, diz estar no Céu. E, a mais absurda das contradições, na iminência dos sofrimentos que viria a passar, roga a si mesmo livrá-lo das dores futuras. Porém, colocando-se na postura do servo obediente, diz: que se cumpra a sua vontade, e não a minha! Uma barafunda inexplicável, criada pela incongruência humana. Assim, de um espírito superior encarnado, Jesus foi guindado, pelo Cristianismo, um sincretismo judeu-politeísta, á condição de um ser mitológico, à semelhança dos deuses greco-romanos, dos quais o inconsciente dos prosélitos politeístas estava saturado. E assim, de um ser humano que havia nascido judeu, vivido como judeu e morrido como judeu, Jesus se tornou a encarnação do próprio Deus.

Djalma Argôllo
Salvador, madrugada do dia 02 de janeiro de 2013

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