Djalma Argollo

Djalma Argollo
Terapeuta Junguiano

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Instante terapêutico


Um dia, há cinco anos, fui procurado na clínica por uma jovem que havia marcado uma sessão terapêutica. Estava acompanhada por um moço nos inícios de seus trinta anos, alto, com o corpo bem delineado de quem faz constantes exercícios. Nos seus 1,80 m,  era um homem bonito. 
Ela, com 25 anos, era uma bonita mulher! Alta, e com a estatura aumentada mais ainda pelos sapatos de salto alto, chamava a atenção sobre si, onde quer que se apresentasse; os cabelos enlourecidos, compridos e escovados, caiam até o nível das omoplatas. 
No rosto brilhavam os grandes e lúcidos olhos verdes, em cujas palpebras os cílios se alongavam elegantemente. 
Estava impecavelmente  maquiada, mas sem exageros. As unhas bem feitas, pintadas de vermelho rubro, combinavam com o batom dos lábios cheios e bem desenhados, aspeados por duas graciosas covinhas que se formavam quando sorria. 
Seu corpo era formado por curvas bem feitas num todo harmonioso, e sua pele muito alva  mostrava que não era uma pessoa de se expor ao sol, por muito tempo. 
Irradiava sensualidade num vestido "tomara que caia", que lhe delineava as formas, e um blaise lhe protegia os ombros desnudos. Era elegante e desenibida.
O horário estava marcado com o nome dela. O rapaz, porém, pediu para falar reservadamente comigo, antes do atendimento.
Repliquei-lhe que em minha agenda constava o nome da jovem, e não o dele. Nesse momento ela interveio dizendo que não havia problema, pois haviam acertado assim, antes. Em vista disso, aquiesci.
Uma vez em minha sala, disse-me que namorava a moça há algum tempo, na capital onde moravam, mas que ela se mudara para Salvador, e ele estava aqui com o objetivo de fazê-la retornar, pois a amava muito, e sofria com sua ausência. Contou que era evangélico e desejava casar-se com ela. Inclusive, estava muito preocupado, pois, ela não estava bem; acordava no meio da noite gemendo ou gritando por causa de pesadelos terríveis. Vivia irritadiça, e pensava que se ela voltasse para a  terra natal, tudo passaria, pois aqui vivia isolada, longe das amizades e parentes...
Escutei-o, mas esclareci que meu objetivo como terapêuta seria verificar os problemas e necessidades que ela me apresentasse, e não "fazer-lhe a cabeça" para atender o que me pedia. Ele mostrou seu desapontamento de imediato, no rosto, e se despediu de mim, enquanto eu ia buscá-la, para o atendimento.
Muitos maridos, namorados, pais etc., tentam usar o psicoterapêuta para manipular as pessoas que lhe estão vinculadas. Mas ele tem compromisso, exclusivamente, com o analisando. Pode chegar a envolver as pessoas diretamente ligadas a ele, quando isso venha em seu benefício, e com sua concordância explicita. Exceto em situações especiais, como iminência de suicídio ou crime, o terapêuta não pode deixar que outros interfiram na sua relação com o analisado, e deve comunicar a este qualquer tentativa nesse sentido. Terapia é uma questão de confiança, que não pode ser quebrada.
Quando comecei a atender a jovem, ela colocou que estava vivendo um momento de desequilíbrio. Contou que passava por mudanças de humor, tinha crises de raiva, e algumas vezes chorava sem qualquer motivo. 
Relatou-me sonhos onde ficava claro a existência de um conflito moral muito forte denunciando que o inconsciente procurava compensar um consciente por demais unilateralizado. 
Num sonho recorrente, era perseguida por populares, que a denegriam, atirando-lhe todo tipo de coisas nojentas, inclusive fezes; na fuga caia em pântanos e sufocava na lama, acordando a  se debater, apavorada, com o coração palpitando loucamente. Por causa dos repetidos pesadelos começara a ter medo de dormir. Comprara por conta própria, e a leniência de balconista de farmácia, seu conhecido, remédios para dormir, os quais somente faziam efeito em dosagens fortes. Mesmo assim, ingeria logo dois, com bebida alcoólica, para dinamizar o efeito.  No início os pesadelos foram bloqueados, mas agora ja começavam a acontecer novamente, e sentia a necessidade de aumentar a dose para três comprimidos. Isso sinalizou para mim um processo autodestrutivo que poderia culminar em suicídio. Ao mesmo tempo, o sonho que contara me conduziu a uma associação com a letra de uma música de Chico Buarque de Holanda, inspirada no célebre conto "Bola de Sebo" de Guy de Maupassant, que é sobre uma prostituta, durante a guerra franco-prussiana.
Como chegara muito tensa, eu a deixara falar livremente, para que se acalmasse. Mas, neste ponto, resolvi confirmar uma suspeita que se levantava em meu espírito, e perguntei-lhe a profissão, tendo ela respondido prontamente:
- Garota de programa.
Indaguei-lhe  quando e por que escolhera essa profissão. Disse-me que aos dezoito anos tornara-se modelo e durante os eventos de que participava passou a ser assediada por homens ricos e altos executivos. No início resistira, mas as responsáveis pelos desfiles, e colegas, passaram a incentivá-la a aceitar os encontros remunerados, listando as vantagens financeiras da atividade. Tendo saído uma vez com um grande empresário, ganhara expressiva quantia e uma jóia valiosa.  Concluíra que, daquela forma, ganharia muito mais do que como modelo, pois não era nenhuma "top". Inclusive me disse, sem entrar em detalhes, que no meio isso é muito comum, o que interiormente lamentei. Ao mesmo tempo, me levou a meditar nos inúmeros meios de incentivo à prostituição, aparentemente legais, que existem no mundo hoje em dia.
Perguntei-lhe sobre a reação da família e ela disse ser filha única. Seu pai morrera quando tinha doze anos. Morava com a mãe em sua cidade, antes de vir para Salvador. Inclusive ela estava naquele momento com ela, passando uns dias. Perguntei-lhe sobre a atitude dela em relacão ao seu trabalho, e ela respondeu que a mesma não interferia. E que ela, como boa filha, a mantinha com todo conforto, "não deixando lhe faltar nada", pontuava com orgulho.
Nesse ponto, passou a me comunicar sensações e sentimentos  que lhe estavam ocorrendo. Quando entrava num local e as pessoas em volta se afastavam, ela imaginava que faziam isso por ela ser garota de programa. Sentia-se discriminada quando não a atendiam de imediato nos estabelecimentos onde ia fazer compras... O conflito moral ficava patente. Inquirindo quando os sintomas se apresentaram, foi-me respondido que há dois meses. Perguntei-lhe o que acontecera por essa época, para deslanchar os sintomas que apresentava. Não lhe vinha nada à mente.
Perguntei-lhe, então sobre o rapaz que se apresentara como seu namorado. E ela me confirmou que o era há um ano. Começara com um "freguês', mas evoluíram para um namoro. No início ele aceitara sua profissão, mas depois começara a ter crises de ciúmes, por isso ela se mudara para Salvador para que ele não prejudicasse sua atividade. Mas ele ligava constantemente pedindo para que voltasse e.. Nesse momento ela disse:
- Lembrei agora que, há dois meses, ele pediu-me em casamento. 
Ficara surpresa e, no ato, lhe vieram à mente seus sonhos juvenis de se casar e ter filhos. Mas cairá em si, pois isso lhe tiraria seu trabalho e o rapaz, apesar de ter um bom salário, como profissional liberal que era, não poderia lhe dar o estilo de vida a que já havia se acostumada como garota de programa de homens ricos
Ele, todavia, vinha assediando-a, insistindo em sua proposta, o que a irritava muito. Nesse instante refletiu um pouco e perguntou se essa seria a origem dos problemas que estava passando.
Como terapeuta lhe devolvi:
- O que você acha?
Ela respondeu que não conseguia ver o nexo entre o pedido dele e os sintomas que lhe estavam acontecendo.
Nesse ponto, levei-a a raciocinar sobre o problema moral que nela se havia estabelecido: os sonhos de casamento que acalentara, e que é normal em todas as mulheres e homens, que o pedido inesperado fizera emergir, e a renuncia à vida de luxo que teria de fazer, abrindo mão da atividade que exercia. A vida a colocava diante de uma escolha e, fosse qual fosse a que fizesse, teria de lidar com as consequências que adviriam.
Ela então fez a clássica pergunta:
- O que você acha que devo fazer? 
Respondi-lhe de pronto:
- Não tenho a mínima idéia! Essa escolha é sua, e somente sua! É sua vida, sua jornada heróica. Seu futuro, sua existência, depende dessa escolha, e ninguém tem o direito de interferir. É de sua exclusiva responsabilidade.
Seus belos olhos verdes encheram-se de lágrimas que ficaram ali paradas, sem se decidirem a cair.
Levantei-me comunicando que o tempo se esgotara, e eu tinha outro paciente a atender.  Cumprimentamo-nos em despedida. Ela saiu, e me veio à mente enquanto a via caminhar para a recepção, a figura de uma ninfa assediada por faunos enlouquecidos de testosterona...
Nunca mais a vi. 
Às vezes me pego pensando: "qual terá sido sua escolha? E o que ela lhe trouxe?". Pois, como lhe disse, eu não tinha, e continuo sem ter, a menor idéia de qual seria a melhor escolha para sua existência... E quando meus preconceitos tentam me impor uma solução, os repilo no ato. Afinal não me sinto um Tirésias, a quem Zeus outorgou a visão do futuro, compensando a visão física que a raiva de Hera arrebatara-lhe.
Outro ponto do drama me fez pensar na variedade de escolhas que os seres humanos fazem, e que ditam cirunstâncias existenciais tão diversas que transformam os destinos num caleidoscópio em perpétua mutação: um rapaz evangélico, com uma crença extremamente rígida e repressiva, busca, contra seus princípios, manter relações com prostitutas, o que lhe é proibido terminantemente por sua fé. E, o mais interessante,  apaixonar-se por uma, querendo torná-la sua esposa. Uma verdadeira enantiodromia: o choque dos contrários. 
O inconsciente está na base das escolhas existenciais, não há que duvidar. Imaginando os dois em intimidade, vem-me à mente a imagem do Tao Chi; mas, no caso, qual o yin e qual o yang? O que é necessário que eles aprendam,  para o processo de individuação que estão desenvolvendo?
O psicoterapeuta deve manter eterna vigilância sobre seus preconceitos e moralismo. Não lhe cabe impor sua visão de mundo ao paciente, nem condenar-lhe a maneira de ser e viver. Por mais difícil que seja, deve exercitar a "neutralidade axiológica" ao máximo. É claro que nem sempre vai conseguir. A contra-transferência sempre se apresenta, e impõe ao analista a necessidade de buscar auxílio, seja em supervisão, seja em análise. Os pacientes são permanentes desafios à sua sombra. A análise é biunívoca: na medida em que se analisa, também se é analisado. A história do paciente, suas dificuldades, problemas e conflitos fazem aflorar emoções e sentimentos semelhantes no terapeuta. Muitas vezes um se torna o espelho do outro.
Todo psicoterapêuta é um Quiron: um ferido curando feridas dos outros, um doente medicando doentes. Enfim, um ser humano ajudando outros seres humanos a solucionar problemas humanos.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

A família em trasição

Nossa época esta vivendo transformações naturais e necessárias. E, nela, a família passa por profundas transformações. A família tradicional, com casamentos que duravam anos, parece estar, no Ocidente, em pleno desaparecimento. As relações afetivas duram cada vez menos, mas deixam como produtos naturais os filhos. A variação de parceiros gera uma família que se pode denominar de "alta rotatividade". O pai e a mãe deixaram de ser figuras fixas no desenvolvimento dos filhos. Hoje existe, com maior frequência, a troca de parceiros conjugais, enquanto permanecem as relações filiais com o pai ou a mãe afastados. Além do mais, a postura defensiva do cônjuge com filhos, em relação à interferência do outro na educação deles, é um problema a ser considerado. E isto fica mais complicado na "família mosaico", quando são reunidos os filhos de um dos cônjuges, com os filhos do outro, num mesmo lar. Estes tipos novos de família, que já acontece em larga escala, tem apresentado consequências mais negativas sobre o desenvolvimento psicológico dos filhos, do que positivas.
Mas, a mais importante conquista do nosso tempo é a família homossexual. Como é uma forma familiar relativamente recente, falta um acúmulo de material suficiente para uma análise segura de suas consequências sobre os filhos. Alguns estudos demonstram que esse novo tipo de família apresentam os mesmos problemas e virtudes das famílias heterodoxas, e não as tragédias que alguns previam.


Djalma Argollo
Fórum de debates
Pós-graduação em PSICOLOGIA CLÍNICA
UNIARA

Pais e filhos

Pais e filhos estão interligados por fortes laços laços inconscientes, uma. Existe entre eles projeções fundamentais (participação mística) que devem ser levadas em conta na abordagem psicológica. Quando a criança apresenta distúrbios psíquicos, não se pode apenas trabalhar com elas, na busca de solução do problema. É necessário incluir a família, como defende a abordagem sistêmica. Mas isso não apenas por causa da influência do meio familiar, e principalmente dos pais, sobre a criança. MAS, TAMBÉM PELA INFLUÊNCIA DA CRIANÇA SOBRE O MEIO FAMILIAR. Existem alguns que acreditam que a criança é simplesmente objeto da ação familiar, mas no trabalho clínico percebemos que a criança, de forma inconsciente, atua como agente sobre os pais, e o grupo familiar, através de manipulações diversas, para atingir seus objetivos egocêntricos imediatos de sobrevivência. Existem problemas psíquicos apresentados por adultos que não são o resultado da influência familiar sobre eles quando crianças, mas que derivam das manipulações que realizou, na busca de atrair para si a atenção do grupo familiar.
É claro que existe uma interdependência psíquica entre todos os componentes da família, e de grande complexidade, gerando consequências diversas no desenvolvimento psicológico dos seus membros. Na verdade, todos nós carregamos, psíquicamente, inumeráveis influências psíquicas, mas as que ocorrem na infância são, normalmente, as mais persistentes e duradouras.


Djalma Argollo
Publicado no fórum de debates da Pós-Graduação
Em Psicologia Clínica na UNIARA

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Excerto Junguiano


..o inconsciente em si já pode representar um perigo. Uma das formas mais comuns desse perigo é provocar acidentes. Acidentes de todo tipo - em número bem maior do que o público possa imaginar - são causados por fatores de ordem psíquica. A começar por pequenos acidentes, como tropeçar, esbarrar, queimar os dedos, etc. até os acidentes automobilísticos e catástrofes alpinistas: tudo pode ter origem psíquica e, às vezes, já está programado semanas ou até meses antes. Examinei grande número de casos dessa ordem, e pude comprovar que muitas vezes, semanas antes, os sonhos já revelaram uma tendência autodestrutiva. Todos os acidentes provocados por descuido, como se diz, deveriam ser investigados, sob este enfoque. Sabemos muito bem que não só tolices de maior ou menor importância podem suceder-nos quando, por qualquer motivo, não estamos bem, mas também estamos expostos a perigos que, em dados momentos psicológicos, podem até comprometer a vida. O ditado popular: "Fulano ou sicrano morreu na hora certa", exprime uma certeza intuitiva quanto à causalidade psicológica secreta do caso. Da mesma forma, podem ser provocadas ou prolongadas as doenças físicas. Um funcionamento inadequado da psique pode causar tremendos prejuízos ao corpo, da mesma forma que, inversamente, um sofrimento corporal consegue afetar a alma, pois alma e corpo não são separados, mas animados por uma mesma vida. Assim sendo, é rara a doença do corpo, ainda que não seja de origem psíquica, que não tenha implicações na alma (JUNG, O. C., vol. VII, par. 194).



quinta-feira, 4 de abril de 2013

Alguns apontamentos sobre o estresse e sua profilaxia


Estresse, ou stress, tem dois aspectos pelos quais pode ser analisado: I - a soma de respostas físicas e mentais causadas por estressores que são estímulos externos, os quais permitem ao indivíduo superar exigências do meio ambiente e  II - o desgaste físico e mental causado pelo esforço despendido no processo.
Na Física, o termo estresse designa a tensão e o desgaste apresentados pelos materiais em  experiências ou no uso. Foi aplicado pela primeira vez aos seres vivos em 1936 pelo médico Hans Selye em artigo na revista científica Nature.
O estresse nasce da mudança brusca no estilo de vida e a exposição a um determinado meio, o qual provoca angústia. Quando os sintomas do estresse persistem por  tempo prolongado, podem ocorrer sentimentos de evasão, provocados por ansiedade e depressão. Em tais condições, os mecanismos de defesa não funcionam eficazmente, possibilitando a ocorrência de doenças, especialmente cardiovasculares.
Pessoas com o ego não devidamente estruturado têm mais dificuldade de evitar o estresse ou combatê-lo. Uma forma de evitar ou diminuir o estresse é a derivação da mente, nas situações estressantes, para lembranças de momentos felizes, e a programação imaginativa de situações semelhantes, ou a elaboração mental de atitudes que resolverão o que está sendo o motivo do estresse. Enfim, deve-se procurar desligar da ansiedade causada pelo momento estressante. 
O pensamento positivo, a imaginação ativa, enfim, a fantasia sobre situações agradáveis e compensadoras, enquanto o processo estressante está em curso, minimiza o impacto dele em nosso psiquismo. Uma situação que não tem jeito, como um engarrafamento, em vez da pessoa ficar reforçando a preocupação com o atraso, com o que vai acontecer, deve pensar: "Como não posso fazer nada, vou aproveitar e pensar na programação de minhas férias", por exemplo, ou evocar um momento que foi muito agradável. Enfim, aproveitar para fantasiar coisas que tragam alegria e bem estar.
A hiigiene mental, os exercícios físicos, freqüência a ambientes culturais como teatro, palestras, círculos de meditação e/ou oração, ver filmes, "jogar conversa fora" com amigos de forma regular, são medidas que evitam a instalação do estresse e sua coorte de consequências prejudiciais à saúde física e mental. O que deve ser evitado é o se querer aliviar a tensão "tomando uma bebida para relaxar" ou usar outra droga com o mesmo objetivo. Isto pode causar dependências extremamente prejudiciais de todos os pontos de vista. 
Nas situações de estresse agudo, duas atitudes devem ser tomadas: a consulta com um terapeuta, ou psicólogo, o qual tem a necessária capacitação para dar as orientações corretas sobre o como lidar com o problemas, como também recomendar a consulta ao psiquiátra nos casos em que se faça necessário o uso de medicação devida.

terça-feira, 5 de março de 2013

SONHOS: A Essência orientado a Existência


O sonho é um evento diário que sempre intrigou os seres humanos. Nele acontecem as coisas mais fantásticas: o indivíduo pode voar, tem a capacidade de estar em vários lugares ao mesmo tempo, desloca-se entre regiões distintas sem movimento, conversa com parentes e amigos mortos, sem espanto ou medo. Panoramas e situações sofrem solução de continuidade sem aviso, e sem aparente relação entre si. Isto sem falar daqueles que apresentam fatos mediúnicos ou paranormais, dos quais a história de todos os povos guarda os mais variados exemplos.
Apesar de a interpretação onírica ser uma atividade que remonta, provavelmente, aos tempos pré-históricos, somente no final do século XIX, exatamente no ano 1900, Sigmund Freud (1856-1939) lançou sua mais importante obra: A Interpretação dos Sonhos. Pela primeira vez o sonho era objeto de estudo científico. O sonho foi apresentado como produto de uma instância psíquica: o inconsciente, com significado específico, e importante, que permite entender e solucionar problemas psíquicos e existenciais do sonhador.
Limitado pela rigidez de sua teoria, Freud foi ultrapassado por Carl Gustav Jung (1875-1961), que abordou o sonho como um objeto em si, e não como o resultado de uma manipulação maquiavélica de uma “censura”, capaz de todas as artimanhas e truques, para evitar a interrupção do sono. Seus estudos o levaram a retificar a teoria psicanalítica que fazia do inconsciente produto das atividades do consciente, um verdadeiro quarto de despejos de tudo o que sobrava ou era rejeitado por este; provou que, ao contrário, o inconsciente é anterior ao consciente, tanto na existência individual, quanto na evolução do próprio gênero humano. E que existe, ainda, um conjunto de conteúdos comuns a todos os seres humanos, como possibilidades de pensar, ao qual deu o nome de inconsciente coletivo. Neste conjunto, apontou a existência dos arquétipos, imagem dos instintos que, nos sonhos, como nas visões, são representados como figuras mitológicas e sobrenaturais, simbolizando transformações em curso no psiquismo, ou necessidade de adequação da conduta consciente a um padrão diferente do que lhe é corriqueiro. Por causa dessas e outras formulações, o estudo dos sonhos ganhou uma dimensão mais rica, por demonstrar que o inconsciente os utiliza como meio de se comunicar com o ego, de forma compensatória, facultando ao indivíduo possibilidades de retificações necessárias do comportamento, proporcionando uma condição mais adequada e produtiva de vier. Por causa dessa função dos sonhos, foi que denominei este livro: Sonhos, a essência corrigindo a existência (Djalma Argollo, Sonhos: a essência orientando a existência, AMAR - Livraria, Editora e Distribuidora: Salvador - BA, 2012, p. 9)

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

O valor da Fantasia


A fantasia é um dos recursos psíquico mais importante de nossa existência. A fantasia vem contribuindo para o progresso da Humanidade desde sempre. A fantasia fez o homem primitivo construir meios e modos de sobrevivência pois, observando o mundo ao seu redor, começou a imaginar o que fazer para resolver seu problema fundamental: a sobrevivência. Olhando um coelho, por exemplo, que se mantinha muito além do alcance do seu braço, começou a fantasiar como poderia aumentar o tamanho dele, para alcançar a presa. Repentinamente, se viu, em imaginação, pegando um pedaço de galho que jazia no chão, e batendo no animal. Ato, continuo, pôs sua fantasia em prática e inventou um instrumento importante de caça: o porrete. Podem dizer que isto é uma fantasia minha, e daí, quem pode afirmar que estou errado?
A fantasia tem servido para incentivar a cultura e informar, desde que o egípcio Sinhuê escreveu o seu romance de viagens. A fantasia produz a arte e descobre sutilezas psicológicas no comportamento humano, que são usadas nos estudos de psicologia. Fantasiando sobre o estar se deslocando na velocidade de um fóton, Einstein começou a desenvolver a teoria da relatividade, que em 2015 completará um século de revolução da física, revolução a qual não cessa de produzir resultados. Todas as experiências de Einstein foram imaginadas, ou seja, eles a viveu como fantasia e, depois, quando ia meios de verificação foram inventados, comprovaram tudo. Por outro lado, a fantasia pode levar ao caos, ao crime, á destruição. Hitler imaginou uma fantasia cruel e perversa que, na prática, proporcionou a catástrofe e o morticínio da Segunda Grande Guerra.
A fantasia deve conduzir a uma transformação positiva e de qualidade do real. Mas, como tudo na vida, deve existir um equilíbrio no fantasiar. Nunca se deve perder o senso de que há uma diferença entre a fantasia e a realidade. Na fantasia, como no sonho, tudo é possível, na realidade existem limites. Fantasie, sonhe, imagine, mas sem tirar os pés do chão. Que sua fantasia faça sua realidade melhor do que foi até hoje, e lhe ajude a integrar elementos do inconsciente ao se consciente e lhe transforme numa pessoa individuada.


quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

O Fanatismo


Algo contra o qual devemos nos precaver é o fanatismo. Fanático é uma pessoa que somente enxerga a vida de uma única maneira, e exclui todas as outras. Ele pensa, sente e age dentro de um círculo exclusivo e exclusivista. Tudo o que concorda com sua maneira de ver e sentir é certo, tudo mais não presta. Ele é o dono exclusivo da verdade.
O fanático é inquisidor, intolerante e capaz dos mais baixos e cruéis atos contra quem tem a ousadia de divergir dele. Por isso o fanático tem um viés sociopata e, se a situação social torna-se favorável, ele integra o bando dos verdugos, torturadores, acusadores, delatores e espiões. A História está cheia de exemplos do que os fanáticos podem fazer, e fazem, quando podem.
O fanatismo é uma grave psicopatia. É a unilateralidade absoluta da psiquê, e requer tratamento psiquiátrico, concomitante com o psicológico. O problema é que ele, como muitos doentes mentais, não admite sua doença e recusa tratamento. O fanático vive escondido atrás de um biombo ideológico para se proteger. Ele tem medo de abrir a mente e descobrir que está errado. Esta idéia o deixa em pânico, portanto se agarra ferreamente a seus conceitos, agarrando-se desesperadamente ao círculo fechado dos que pensam e sentem como ele. Somente assim se sente em segurança.
O fanático é como aquela mãe que assistia ao desfile do exército na parada de sete de setembro, olhando orgulhosa o filho que, fardado, desfilava com a tropa. O rapaz está com o passo diferente de todos os demais. Ela, então, virando-se para alguém que está ao lado, diz com satisfação:  "Aquele é meu filho! Observe, é o único que está marchando com o passo certo!". O fanático distorce a realidade, sofisma e mente, procurando transformar o falso em verdadeiro, a qualquer custo.
Para evitar o fanatismo devemos sempre pensar que não existe "verdade absoluta". Toda verdade tem limites. Admitir isso abre-nos a mente para outros conceitos e possibilidades, evitando a estagnação das ideias. Will Durant, no seu "Filosofia da Vida",  escreve o seguinte: "A filosofia começa quando aprendemos a duvidar de nossas crenças , principalmente as que nos são mais queridas". Sendo capazes de entender que toda verdade é relativa, evitamos o fanatismo, por termos a humildade de admitir e existência de outras verdades, tão importantes quanto aquela na qual acreditamos. E, finalmente, nunca discuta com um fanático, é perda de tempo. Tenha compaixão dele, é um doente que se acha o único saudável, no mundo.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Como lidar com crises pessoais


Diante das crises existenciais a queixa é inoportuna e improdutiva. Pensar soluções: essa a atitude sábia. Diante da dificuldade, existem pessoas que paralisam, aterrorizadas pelas exigências que elas apresentam. Essas pessoas devem começar a desenvolver esforços para mudar a visão interna dos acontecimentos. Existem problemas com soluções fáceis, que apenas precisam que o indivíduo tenha a necessária calma e paciência para encontrá-las. Isso acontece na maioria dos casos. Mas o medo e o desespero paralisam, muitas vezes, o que se encontram em situações difíceis. Quantas vezes, em terapia, quando discuto com clientes soluções para suas crises, eles têm verdadeiras epifanias ao descobrirem que estavam se desesperando sem necessidade.
Aprender a buscar soluções requer uma estratégia bem definida. Primeiro, é preciso dimensionar a real extensão do problema, o que significa analisá-lo de forma clara e objetiva, sem fugir de confrontá-lo. Depois, listar o que pode ser feito a curto, médio e longo prazo, para resolve-lo. Finalmente, começar a agir para implementar as soluções imaginadas. E ter paciência para aguarda os resultados. Poderão contra-argumentar meus raciocínios, assim: "Dito dessa maneira fica fácil, mas na prática é que eu quero ver". Em momento algum afirmei que isso é fácil, mas que é possível. Mas para que essa forma de agir se torne uma conquista, requer decisão e perseverança.
Comece se imaginando sendo assim. Fantasie, como costuma fazer com outras situações existenciais. E, paralelamente. Decida fazer o que está imaginando. No começo enfrentará a dificuldade do não habitual, mas a perseverança produzirá frutos. Mas, veja bem, o exercício mental deve anteceder à crise. Se ela já estiver instalada será necessário tomar consciência dela e agir para resolver, como disse acima.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

O Passado? Ora, o passado já passou!


O passado não é uma entidade física; em outras palavras, ele não é uma entidade real. O passado existe apenas como consequência. Senão, vejamos: se eu deixei de cumprir uma tarefa importante, hoje, amanhã ao ser cobrado por ela, terei de confessar que não a fiz, e arcar com as consequências do não ter realizado a minha obrigação. Mas o passado em si, isto é, o momento em que eu devia ter feito a tarefa nem existe nem nunca voltará a existir. Caso eu consiga uma nova oportunidade, ou seja obrigado a realizar o que não fiz, será um novo momento, uma nova situação, uma nova realidade. O momento em que a tarefa deveria ter sido feita, perdeu-se para sempre, e nunca retornará fisicamente, apenas poderá ser evocado como lembrança. Caso tenha sido registrado em vídeo, o momento, poderá ser repetido, como na evocação da memória, vezes sem conta, mas sem qualquer resultado prático que não o da lamentação da oportunidade esperdiçada. E lamentar a oportunidade perdida adiantará alguma coisa? Claro que não! Duas coisas situações como a que aventei requerem: a) que se arque com as consequências da irresponsabilidade, pagando o preço requerido pela falta e, b) tomar-se uma atitude: nunca mais deixar de fazer aquilo pelo que se responsabilizou ou que se é responsável.
O que se fez ou se deixou de fazer não tem retorno. Ninguém pode apagar o passado. Ele está fora do alcance, para sempre. Somente se pode fazer, ou não fazer, em oportunidade semelhante, o que foi ou não, realizado. Mas nunca será a mesma coisa. Pode até parecer que é, mas realmente é uma nova atitude, uma nova realização. Naturalmente ela estará pautada pela experiência que se adquiriu com a ação, ou não ação, realizada.
Em nossa vida, devemos ter o passado como repositório de lições aprendidas, de experiências adquiridas, para usar quando a vida nos colocar em situações assemelhadas. Mas sempre lembrando que todo e qualquer conhecimento, como toda e qualquer experiência, devem ser aplicados de forma atualizada, qual seja, adequado ao momento presente, pois no passado o que se fez ou não fez acorreu dentro de uma realidade específica, com suas peculiaridades do momento. No presente, existe uma nova configuração de circunstâncias que deve ser levada em conta.
Mas, um ponto é essencial: nunca se deve lamenta o passado. Isto é perder tempo. Nem deve-se usá-lo como um fator de arrependimento, ou de manutenção de um estado psíquico de culpa. Nada se ganha com isso, ao contrário, se perde tempo e possibilidade de realizar, ou não, no agora que passa célere.
Busquemos retirar de nossos raciocínios e discursos, expressões como: “Eu (ou você) não deveria ter feito isso!”; ora, se uma coisa foi feita, como não deveria tê-lo sido? A reclamação não tem o menor sentido, a não ser o de impor culpa ou humilhar, mas nada. Nem pedagogicamente é positiva. Dever-se-ia, sim, pontuar o que foi realizado, ou não, de uma maneira propositiva: “De agora em diante não faça da mesma forma, mas dessa outra”! Aqui existem uma forma educativa e transformadora. O passado servindo para melhorar o presente ou o futuro, em circunstâncias parecidas.
Pode-se inquirir por quê alguém, ou nós próprios, fizemos ou não algo, objetivando a conscientização dos motivos da ação ou não ação, realizada. E, dessa forma, orientar melhor, ensinando a nós ou ao outro, como raciocinar diante de situações parecidas ou não, levando em conta a maioria dos detalhes, a fim de se agir da forma mais correta possível.
Em suma, nunca se permita perder tempo com o passado. Use-o, seja para você ou para os outros, como forma de esclarecimento e aprendizado a ser aplicado nos seus presentes. E não estranhe eu ter colocado presente no plural; fiz propositadamente, porque não existe um presente; mas uma sucessão extremamente rápida de presentes. Você pode testar isso: diga lentamente a palavra presente... O que aconteceu? Enquanto você falava ela ia mergulhando no passado. Ao terminar, o presente pronunciado não mais fazia parte do seu presente. Como ocorre agora com o que você está lendo. A leitura já esta quase toda no passado. Você poderá reler, é verdade, mas agora numa outra circunstância: a de aprofundar, ou recordar, o que foi antes lido. Não mais terá o sabor da primeira vez. Afinal, toda primeira vez, como qualquer coisa em nossa vida, somente ocorre uma única e irrepetível vez. Assim, aproveite bem o seu agora, para nunca ter de lamentá-lo, nem se punir por ele, com seu remorso. 

domingo, 17 de fevereiro de 2013

ANIMA - Terapia e Estudos (ANIMA-TE): novos rumos

A partir de agora, o blog FOCALIZANDO A ALMA, será dedicado exclusivamente aos assuntos terapêuticos, realizados pela ANIMA - TERAPIA E ESTUDOS (ANIMA-TE). Nele estaremos divulgando informações sobre nossos cursos, vivências, palestras e demais atividades ligadas à nossa missão intitucional.

Ao mesmo tempo publicaremos sugestões e resenhas de livros e artigos, tanto de Djalma Argollo, como de autores ligados à Psicologia Junguina.

Este ano a ANIMA-TE já introduziu melhorias no seu site: www.animaterapiaeestudos.com, verifique.

Em termos de trabalho terapêutico, estamos oferecendo oportunidade de terapia à distância, para pessoas que moram distante da Cidade de Salvador, BA, seja no interior, em outros Estados da Federação ou no exterior, usando os recursos da internet. 

Querendo informações sobre marcação de consultas, inscrição no grupo de terapia e vivência e cursos   ligue para (71)3017-9235 / (71)8113-3911 ou nos contate pelo e-mail: anima@animaterapiaeestudos.com.

"...existe no homem algo que seja mais forte do que ele mesmo?  Não devemos esquecer que toda neurose é acompanhada por um sentimento de desmoralização. O homem perde confiança em si mesmo na proporção de sua neurose. Uma neurose constitui uma derrota humilhante e desse modo é sentido por todos aqueles que não são de todo inconscientes de sua própria psicologia. O indivíduo sente-se derrotado por algo 'irreal'" (JUNG, O. C., 1978, vol. XI/1, par. 12).



Reflexões

Existem, grosso modo, duas espécies de insônia: a que é causada por preocupações obsidentes, e a que é espontânea. Neste último caso não há o que angustiar. Em vez de entrar em estresse porque o sono não vem, aproveite o momento para pensar coisas que lhe alegrem a alma: sonhe acordado, criando fantasias de sucesso, de desenvolvimento pessoal, de aprimoramento moral, espiritual e intelectual, e assim sucessivamente. Já no primeiro caso, existe um esforço a ser feito: o de verificar consigo mesmo se o que lhe preocupa tem solução; se tem, deixe de se preocupar; se não tem, deixe o problema de lado, passando a se imaginar nunca mais criando, ou deixando criar, situação semelhante em sua vida; não perca tempo com o arrependimento, se perguntando por quê fez, não fez ou que não deveria ter feito o que motivou sua tribulação atual; isto é pura perda de tempo. Não se muda o passado, mas se pode construir um futuro melhor, a partir das escolhas feitas agora. Ninguém vive no ontem, nem no amanhã, mas no agora. O passado é importante como lição, mas nunca como preocupação. O futuro se constrói no agora. Ele será o resultado das escolhas que se faz, diante do que se está vivendo. Assim, transforme sua insônia num momento de "imaginação ativa". Sonhe acordado, um sonho bom. E nele viva a fantasia de tudo de bom para você, de hoje em diante.

XXXXX

Você está sofrendo, e chora a sua dor! Está certo, deixe que as lágrimas escorram e os soluços explodam no seu peito. Você merece esse momento de catarse emocional. Todavia, quando a tempestade das emoções amainar, não se deixe prender nas teias da vitimização. Sentir-se vítima é um vício que paralisa a alma e destrói toda possibilidade de superação do estado de sofrimento.  Todo e qualquer sofrimento, além do seu "por quê?", tem um "para que?". Ou seja, toda dor implica na necessidade de se aprender algo. É uma lição dura que a vida impõe. E não adianta se ficar na monoideia do: "Por que comigo?". Está pergunta comportaria uma resposta do tipo: "Já aconteceu com outros, por quê não aconteceria com você?". E isso nada resolveria. Diante da dor se deve ter um questionamento proativo: "O que tenho de aprender com isso?". 
É claro que não estou sugerindo uma consolação, pois os sofrimentos são inconsoláveis. Estou indicando um modo pragmático de se enfrentar o sofrimento. Uma forma de se usá-lo para desenvolvimento pessoal. 
Toda dor é convite à mudança. Pois a dor é um mero sintoma, não o mal em si. A dor não resgata, não expunge o erro nem serve de expiação do que se cometeu indevidamente. A dor sinaliza que algo em nossa vida precisa mudar. Apenas isso. Agora, tenha cuidado com o sofrimento, pois ele pode ser patologicamente viciante. Ele atrai a atenção e o cuidado de outros, para nós: a piedade espontânea com as vítimas. E aí podemos nos tornar manipuladores cínicos e desonestos. Isto quando não os tornamos vítimas de nossa vingança contra a vida, destruindo-lhes a possibilidade de uma existência alegre e feliz. 

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Jesus: do homem ao mito

Desde o início o Mestre foi motivo de escândalo. Perseguido sistematicamente pela liderança da religião que ele mesmo praticava, terminou sendo por ela executado, pelo único crime de ser bom, digno e amorável.
Seus próprios discípulos se tornaram um problema, desde o momento em que estava com eles. Picuinhas, ciúmes e invejas marcaram todo o período de apostolado dos seus doze principais seguidores. Após sua morte, as contradições se intensificaram. De um lado, os seguidores palestinos de Jesus, ortodoxos, que defendiam ser necessário a todos os candidatos a entrar para a comunidade dos seguidores do nome, se converterem primeiramente ao Judaísmo, passando a cumprir todas as determinações e preceitos da Tôrah, começando pela circuncisão; do outro, os discípulos liberais, normalmente judeus da diáspora, como os “helenistas”, chefiados por Estevão, para os quais bastava apenas para o candidato aceitar Jesus, e seguir seus ensinos.
Paulo de Tarso, após sua conversão, tornou-se o lider dos liberalizantes. Suas viagens de divulgação dos Evangelhos se tornaram o ponto de origem de um novo movimento religioso, que empolgou porções dos habitantes da Ásia Menor: o Cristianismo, o qual terminou por abafar o judeu-cristianismo, fazendo-o desaparecer completaente, junto com suas pretensões de fazer do movimento inciado por Jesus uma simples seita judaica.
Até aí as disputas eram sobre as condições de discipulado e do direito de ser discípulo do Mestre. Em seu bojo, todavia, outra questão estava sendo gerada. Não sendo necessário assumir a condição de seguidor de Moisés, para se fazer discípulo de Jesus, os dois ficavam equiparados do ponto de vista da hierarquia espiritual.
Este me parece o conceito defendido pelos “helenistas”. Mas, com a crescente adesão de pessoas oriundas do politeísmo ao movimento cristão, uma mudança se realizou. Como não possuíam vínculos emocionais com o Judaísmo, para eles Moisés significava, no máximo, um grande profeta, um legislador. Jesus, todavia, era o Filho de Deus, enquanto o libertador do Povo Hebreu, não.
Estabelecida esta posição, outra se pôs: como poderia um simples homem fazer curas, ressurreições de mortos, multiplicação de pães e andar sobre as águas? Além do mais, qual o mortal que anunciou seu retorno à vida, depois da morte, realizando-se a predição como aconteceu? Conclusão lógica, bem mais do que uma criatura especial: o Filho de Deus era, na verdade, o próprio Deus encarnado. Assim, a educação politeísta dos discípulos não judeus terminou por recriar, por vias indiretas, a crença tradicional que morava em seus inconscientes. Daí à reconstrução do Panteão dos antigos deuses, sob nova roupagem, foi mera questão de tempo.
Gradualmente, Jesus, o Homem de Nazaré, foi deificado, passando a ser uma insólita figura de duas faces: uma, tipicamente humana, condicionada à cultura de seu tempo, sofrendo e chorando como todos nós; um simples mortal que se dirigia a Deus em pedidos de socorro e proteção. Este é encontrado nos Evangelhos, mesmo no de João, o qual defende a tese da deificação de Jesus a outra face: Deus corporificado, vindo sentir de perto os problemas enfrentados pela sua maior criatura: o ser humano. Um Deus com um problema de dupla personalidade, pois, esquecendo-se de quem era, chama-se de Pai, e olvidando que estava tanto no Céu como na Terra, simultaneamente, diz estar no Céu. E, a mais absurda das contradições, na iminência dos sofrimentos que viria a passar, roga a si mesmo livrá-lo das dores futuras. Porém, colocando-se na postura do servo obediente, diz: que se cumpra a sua vontade, e não a minha! Uma barafunda inexplicável, criada pela incongruência humana. Assim, de um espírito superior encarnado, Jesus foi guindado, pelo Cristianismo, um sincretismo judeu-politeísta, á condição de um ser mitológico, à semelhança dos deuses greco-romanos, dos quais o inconsciente dos prosélitos politeístas estava saturado. E assim, de um ser humano que havia nascido judeu, vivido como judeu e morrido como judeu, Jesus se tornou a encarnação do próprio Deus.

Djalma Argôllo
Salvador, madrugada do dia 02 de janeiro de 2013