Djalma Argollo

Djalma Argollo
Terapeuta Junguiano

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Jung, e a imortalidade da alma

Quanto à certeza pessoal de Jung com relação à continuidade da consciência, após a morte física, leiamos o que escreveu Marie-louise von Franz, sua discípula desde os dezoito anos de idade, e que sempre esteve ao seu lado, participando ativamente dos seus estudos e privando de sua intimidade: “Embora considerasse os ‘espíritos’, nesse período inicial, ‘apenas’ como complexos psíquicos, Jung mudou sua postura em sua obra posterior. É difícil perceber como um fantasma “vinculado a um lugar”, por exemplo, possa ter sido evocado pelos complexos de uma pessoa (Franz, 1997, p. 54).
E, finalmente, o próprio Jung escreveu o seguinte, em carta ao Dr. Fritz Künke, de Los Angeles, na Califórnia, sobre a forma pensava sobre o assunto:
Certa vez conversei longamente em Nova Iorque com um amigo de William James, Prof. Hyslop, sobre a questão da prova e da identidade. Ele admitiu que, considerando todos os fatores, a totalidade desses fenômenos metafísicos seria melhor explicada pela hipótese dos espíritos do que pelas qualidades e peculiaridades do inconsciente. Com base em minhas próprias experiências, preciso dar-lhe razão neste aspecto. Em cada caso particular preciso ser necessariamente cético, mas no geral devo conceder que a hipótese dos espíritos traz melhores resultados na prática do que outra qualquer (Jung, 2002, p. 35).
Em 1956, respondendo a um senhor H. J. Barret, dos Estados Unidos, escreve Jung sobre sua crença na imortalidade da alma:
Ainda que meu tempo seja escasso e minha idade avançada um fato real, tenho gosto em responder às suas perguntas. Não são fáceis como, por exemplo, a primeira: se eu acredito numa sobrevivência pessoal após a morte. Não poderia dizer que acredito nela, pois não tenho o dom da fé. Só posso dizer se sei alguma coisa ou não.
1. Sei que a psique possui certas qualidades que transcendem os limites do tempo e do espaço. Em outras palavras, a psique pode tornar elásticas essas categorias, ou seja, 100 milhaspodem ser reduzidas a uma jarda, e um ano a poucos segundos. Isto é um fato do qual temos todas as provas necessárias. Além disso, há certos fenômenos post-mortem que eu não consigo reduzir a ilusões subjetivas. Por isso, sei que a psiquê pode funcionar sem o empecilho das categorias de espaço e tempo. Ergo ela própria é um ser transcendental e, por isso, relativamente não espacial e “eterna”. Isto não significa que eu tenha qualquer tipo de certeza quanto à natureza transcendental da psique. A psique pode ser qualquer coisa.
2. Não há razão alguma para supor que todos os chamados fenômenos psíquicos sejam efeitos ilusórios de nossos processos mentais.
3. Não acho que todos os relatos dos chamados fenômenos miraculosos (como precognição, telepatia, conhecimento supranormal, etc.) sejam duvidosos. Sei de muitos casos em que não paira a mínima dúvida sobre sua veracidade.
4. Não acho que as chamadas mensagens pessoais dos mortos devam ser rechaçadas in globo como ilusões. Immanuel Kant disse certa vez que duvidava de toda história individual sobre fantasmas, etc., mas, se tomadas em conjunto, havia algo nelas... Eu examino minuciosamente o meu material empírico e devo dizer que, entre muitíssimas suposições arbitrárias, há casos que me fazem titubear. Tomei como regra aplicar a sábia frase de Multatuli: Não existe nada que seja totalmente verdadeiro, nem mesmo esta frase (Jung, 2003, pp. 53-54).