Djalma Argollo

Djalma Argollo
Terapeuta Junguiano

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Alma e Anima

Jung defende que o conceito de alma deriva da projeção arquetípica do que se conhece em física como primeira lei da Termodinâmica ou lei da conservação da massa e da energia, cujo enunciado é: em todo processo, a quantidade total de massa e energia é inalterável. Mais conhecida pelo nome de lei da conservação da energia foi enunciada em 1842, explicitamente, pelo médico alemão Julius Robert Mayer (1814 - 1878). Ele a concebeu durante uma série de viagens motivadas pelo exílio a que foi condenado, por razões políticas. Não teria sido uma elaboração metódica, de acordo com os princípios que norteiam a pesquisa científica, mas um insight, uma apercepção que se fez consciente de modo inesperado, como sói acontecer com as grandes intuições que formam a base do arcabouço cultural.

Em sua Energetik, Helm diz que o novo pensamento de Robert Mayer não se desenvolveu pouco a pouco a partir do aprofundamento das idéias tradicionais existentes sobre energia, mas pertence à ordem das idéias captadas intuitivamente, provindas de outras esferas de trabalho espiritual, que também assaltam o pensamento, exigindo que os conceitos tradicionais transformem de acordo com elas" (Jung, 1991a/1942, par. 107).

Jung concluiu, para mim corretamente, que esse conceito nasceu de uma imagem primordial, que está no inconsciente coletivo, e que tem aparecido ao longo da história, intuitivamente, entre os diversos povos e raças. Os primitivos a projetaram na esfera mágico-religiosa, onde fez surgir, dentre outros, o conceito da imortalidade da alma:

Segundo uma interpretação antiga, a própria alma é a energia; a idéia de sua imortalidade é a de sua conservação e na acepção budista e primitiva da metempsicose (transmigração da alma) reside a sua capacidade ilimitada de transformação e perene conservação (Jung, 1991a/1942, par. 108).

Existe ainda uma explicação necessária: o conceito junguiano de alma possui, um outro significado - sendo que às vezes se confunde com o citado - importante no conjunto da teoria, sob o nome de anima, (denominação em latim a alma). Esta palavra foi escolhida por Jung para designar uma das duas formas de atualização de um arquétipo que tem influência e ingerência permanentes na vida do ser humano: o arquétipo da contraposição inconsciente à identidade sexual do indivíduo, que foi por ele denominado de anima/animus. Isto porque o gênero já apresenta, de forma explícita, uma das configurações em que o arquétipo pode ser atualizado, logo, ele se atualizará com aspectos do gênero oposto, ou seja, se for uma mulher, o arquétipo será atualizado segundo aspectos masculinos, em sendo um homem, com aspectos femininos. Influenciado nisso pela convivência com pessoas do sexo oposto, sobre as quais a criança realizará uma atualização do arquétipo. Logo, todo ser humano, de acordo com o seu sexo, terá no inconsciente o oposto, ou seja, uma configuração arquetípica contrária. O compositor Gilberto Gil definiu a anima, mutatis mutandis, em sua composição O Super-homem.
Carl Gustav Jung explica o assunto de forma bem clara e simples na seguinte passagem:

Na Idade Média, muito antes de os filósofos terem demonstrado que trazemos em nós, devido a nossa estrutura glandular, ambos os elementos – o masculino e o feminino -, dizia-se que “todo homem traz dentro de si uma mulher”. É este elemento feminino, que há em todo homem, que chamei “anima”. Este aspecto “feminino” é, essencialmente, uma certa maneira, inferior, que tem o homem de se relacionar com o seu ambiente e sobretudo com as mulheres, e que ele esconde tanto das outras pessoas quanto dele mesmo (Jung, 1998c/1961, p. 31).

O arquétipo anima/animus tem três funções básicas: atuar na busca e escolha de parceiro afetivo, ser o elemento responsável pelas projeções e ser a mediadora entre o consciente e o inconsciente. O meu amigo Adenáuer Novaes propôs uma explicação simbólica para a “teoria das almas gêmeas”, como sendo, essa figura arquetípica – mulher ou homem, inconsciente, que formaria nossa contraparte ideal, em todos os sentidos. É claro que, no sentido objetivo alma gêmea não existe, conforme brilhante análise de Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos.

(Djalma Argollo, trecho do livro ainda inédito: “Reflexões sobre a Psicologia Analítica”)

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Conflito básico da vida humana

...somos lançados num jato de progresso que nos empurra para o futuro, com uma violência tanto mais selvagem quanto mais nos arranca de nossas raízes. Entretanto, se o antigo irrompe, é frequentemente anulado e é impossível deter o movimento para a frente. Mas é precisamente a perda de relação com o passado, a perda das raízes, que cria um tal "mal-estar na civilização", a pressa que nos faz viver mais no futuro, com suas promessas quiméricas de idade de ouro, do que no presente, que o futuro da evolução histórica ainda não atingiu. Precipitamo-nos desenfreadamente para o novo, impelidos por um sentimento crescente de mal-estar, de descontentamento, de agitação. Não vivemos mais do que possuímos, porém de promessas; não vemos mais a luz do dia presente, porém perscrutamos a sombra do futuro, esperando a verdadeira alvorada. Não queremos compreender que o melhor é sempre compensado pelo pior. A esperança de uma liberdade maior é anulada pela escravidão do Estado, sem falar dos terríveis perigos aos quais nos expõem as brilhantes descobertas da ciência. Quanto menos compreendemos o que nossos pais e avós procuraram, tanto menos compreendemos a nós mesmos, e contribuímos com todas as nossas torças para arrancar o indivíduo de seus instintos e de suas raízes: transformado em partícula da massa, obedecendo somente ao que Nietzsche chamava o espírito da gravidade (Jung, 1997, p. 210).

Relação Pais e Filhos

Para quem estudou e conhece a psicologia de povos primitivos parece manifesto existir uma relação entre o conceito de "identidade" e o que LÉVY-BRUHL designa como participation mystiquc ("participação mística"). E fato curioso que muitos etnólogos ainda se recusem a aceitar esta concepção genial; a culpa disso talvez deva ser procurada sobretudo na escolha pouco feliz do termo mystiquc. A palavra "místico" nos da como que a idéia de uma morada de todos os espíritos imundos, ainda que originariamente não tenha sido esse o conteúdo do conceito, o qual foi rebaixado a tal ponto justamente pelo uso impuro de todo o mundo. Nesta identidade não há nada de "místico", como também não é absolutamente místico o metabolismo existente entre a mãe e o embrião. A identidade provém essencialmente do estado de inconsciência em que se encontra a criança pequena, fato que é conhecido de todos. O mesmo tipo de relacionamento se dá no homem primitivo: ele é tão carente de consciência como a criança. A falta de consciência é que origina a indiferenciação. Ainda não existe o "eu" claramente diferenciado do resto das coisas, mas tudo o que existe são acontecimentos ou ocorrências, que tanto podem pertencer a mim como a qualquer outro. É suficiente que alguém se sinta afetado ou tocado por isso. A extraordinária força contagiante das reações emocionais já se encarrega de que todos os que porventura se encontrem por perto sejam igualmente envolvidos. Quanto mais débil é a consciência do "eu", tanto menos importa considerar quem propriamente foi afetado, e igualmente tanto menos está o indivíduo em condição de proteger-se contra o contágio geral. Essa proteção apenas poderia ser atuante se alguém fosse capaz de dizer: és tu que estás excitado ou furioso, e não eu, pois eu não sou tu. Esta é a situação da criança na família. Ela se sente atingida na mesma medida e do mesmo modo que todo o grupo.
A conclusão importante que daí surge para todo aquele que se interessa pelo conhecimento teórico é que, via de regra, as reações mais fortes sobre as crianças não provêm do estado consciente dos pais, mas de seu fundo inconsciente. Para toda pessoa de responsabilidade moral, que ao mesmo tempo é pai ou mãe, esse fato representa um problema de certo modo amedrontador. Cada um logo compreende: aquilo que conseguimos controlar mais ou menos, isto é, a consciência e seu conteúdo, é, no entanto, apesar de todo nosso esforço, ineficiente quando comparado com os efeitos incontroláveis do fundo psíquico. Sobrevém a qualquer pessoa um sentimento de extrema incerteza moral quando se começa a refletir seriamente sobre o fato da existência de atuações inconscientes. Como então se poderá proteger as crianças contra os efeitos provenientes de si próprio, quando falha tanto a vontade consciente como o esforço consciente? Indubitavelmente será de grande utilidade para os pais saberem considerar os sintomas de seu filho à luz dos seus próprios problemas e conflitos. É dever dos pais proceder assim. Neste particular, a responsabilidade dos pais se estende até onde eles têm o poder de ordenar a própria vida de tal maneira que ela não represente nenhum dano para os filhos. Em geral se acentua muito pouco quão importante é para a criança a vida que os pais levam, pois o que atua sobre a criança são os fatos e não as palavras. Por isso deverão os pais estar sempre conscientes de que eles próprios, em determinados casos, constituem a fonte primária e principal para as neuroses de seus filhos.
Apesar de tudo, não convém exagerar em demasia a importância desse fato das atuações inconscientes, apesar de ele constituir algo de perigosamente satisfatório para a necessidade que nosso espírito tem de exigir sempre uma causa. Também não se deve exagerar a importância das causas. Existem causas certamente, mas a alma não é também nenhum mecanismo que deva reagir necessária e regularmente a cada estímulo específico. Também aqui, como em outros pontos da prática psicológica, se constata o fato de que numa família de vários filhos apenas um ou outro deles reage no sentido de uma identidade marcante em relação ao inconsciente dos pais, enquanto os demais nada manifestam. É a disposição específica de cada indivíduo que desempenha aqui o papel quase decisivo. Por isso costuma o psicólogo bem informado em biologia apelar para o fato da hereditariedade orgânica e está inclinado a considerar como fator explicativo muito mais a totalidade da massa hereditária genealógica do que a causalidade psíquica momentânea. Este ponto de vista, ainda que de modo geral seja satisfatório, infelizmente se mostra insuficiente em qualquer caso concreto, por não oferecer nada de prático ao tratamento psíquico do caso dado. É também verdade que existe uma causalidade psíquica entre pais e filhos, não obstante todas as leis da hereditariedade. Na verdade, o ponto de vista da hereditariedade, apesar de inegavelmente justificado, leva o interesse educacional ou terapêutico a descurar de modo mais pernicioso o fato prático da influência dos pais; ao mesmo tempo induz a que se considere geralmente de modo mais ou menos fatalístico a massa hereditária, de cujo evoluir não é possível escapar.
Para pais e educadores seria de uma parte omissão grave deixar de considerar a causalidade psíquica, mas de outra seria erro pernicioso atribuir a essa instância a culpa de tudo. Em cada caso influem os dois fatores, sem que um deles precise excluir o outro.
Via de regra, o fator que atua psiquicamente de um modo mais intenso sobre a criança é a vida que os pais ou antepassados não viveram (pois se trata de fenômeno psicológico atávico do pecado original). Tal afirmação poderia parecer algo de sumário e artificial sem esta restrição: essa parte da vida a que nos referimos seria aquela que os pais poderiam ter vivido se não a tivessem ocultado mediante subterfúgios mais ou menos gastos. Trata-se pois de uma parte da vida que — numa expressão inequívoca — foi abafada talvez com uma mentira piedosa. É isto que abriga os germes mais virulentos (JUNG, O Desenvolvimento da Personalidade, Cap. II).