Djalma Argollo

Djalma Argollo
Terapeuta Junguiano

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Projeções

Todos nós, seres humanos, vivemos exclusivamente na esfera psíquica. O mundo exterior é apenas um conjunto de sensações representadas em nossa mente por configuações específicas. Essas "representações" são pessoais e intransferíveis. Ou seja, o mundo exterior, para cada um de nós é único e pessoal; não temos como saber se as representações dos outros humanos são "iguais" às nossas, ou não. Na verdade "iguais" não podem ser, pois o sistema nervoso de cada um possui diferenças e configurações individuais. Será um evento probabilístico quase improvável, encontrarmos duas pessoas com um sistema nervoso fisiológica e estruturalmente iguais. O quase improvável aí fica por conta do fato de que vivemos em mundo estruturado no princípio da incerteza, como nos mostra a física quântica. No máximo podemos ter representações assemelhadas, mas nunca iguais. Muita gente se confunde com o fato de expressarmos através de palavras ou gestos que estamos percebendo fenômenos do mundo exterior, com o mesmo formato, tons e matizes. Isso é questionável, pois quem pode afirmar que estamos temos a mesma percepção, mesmo quando elas parecem coincidir nos detalhes?
Por exemplo, eu posso identificar uma cor, e outra pessoa, sem saber, fazer a mesma indicação. Pode-se argumentar: "E agora? Duas pessoas diferentes (e podem ser inclusive de países em lados opostos do mundo) tiveram a mesma percepção, logo a cor é a mesma!. Ledo engano, as duas podem estar percebendo o mesmo espectro luminoso, porém com nuances diferentes. E se compararem com uma palheta de cores, vão coincidir nas cores porque os matizes pessoais serão semelhantes ao que estarão percebendo na palheta.
Ora, como nossa visão de mundo é resultante do conjunto de percepções que configuram nosso psiquismo, todos temos a nossa própria e ela nunca será igual a de outra pessoa. Isso produz as divergências que são comuns na convivência, mesmo entre aqueles que professam crenças e atividades semelhantes.
Esse relativismo perceptivo está na base de nossas diferenças relacionais, em todo o campo de atividade que caracteriza a sociedade humana. E ele deve conduzir cada um de nós a ter sempre em mente que, sendo o percebido  individual e intransferível, a "verdade" como algo em si, não pode existir (e mesmo que existisse seria impossível de ser apreendida, dado o fato de que nosso sistema nervoso precisaria ser de uma qualidade 100% precisa, 100% do tempo); mas existe sim "nossa" verdade, a qual é fruto da filosofia de vida, que o conjunto das nossas representações (o qual forma nossa experiência existencial), e que serve para nortear nossa existência. É claro que podemos aprimorar nossa filosofia de vida, confrontando as nossas representações sobre assuntos específicos, com as representações que outros nos transmitem através da palavra escrita, falada ou comunicações artísticas. Mas temos de estar cientes que o que entendemos das representações expostas é apenas isso: nosso entendimento do que nos foi comunicado, mas sem que seja exatamente o que o outro realmente comunicou. Nossa percepção das representações alheias tem a ver com a nossa visão de mundo, o que nos faz "entender" aquilo que se afina com nosso modo de ser, sentir e pensar.
Concluindo: como não temos certeza absoluta de que nossas representações refletem aquilo que foi por nós percebido, isso nos obriga a uma reflexão constante sobre o fato de que o que pensamos sobre o mundo, seus fenômenos e as pessoas com quem interagimos breve ou constantemente, são pensamentos próprios e que podem nada ter a ver como a realidade em si. Enfim, como disse Einstein, a percebpção de tudo o que acontece é relativo a quem observa. Ou seja, o que observamos é "nossa" verdade, nada mais que isso.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

A MORTE É UM DIA QUE VALE A PENA

Paliativo, uma técnica de atender quem está em condição terminal. Um video que encanta e causa tristeza, simultaneamente, por lidar com o tema tabu da morte. Ana Quintana Arantes, revela uma face importante desse fenômeno que, mais dia, menos dia, acontece com todos nós.


 

domingo, 1 de março de 2015

Sentimento e emoção


“...a grande infelicidade de nossa cultura é o fato de sermos estranhamente incapazes de perceber os nossos próprios sentimentos, quer dizer, sentir as coisas que nos dizem respeito. Vemos com tanta frequência pessoas passarem por cima de acontecimentos ou experiências sem perceberem o que de fato ocorreu com elas. Pois não percebem que têm uma reação de sentimento. Na maior parte das vezes sentem apenas o que chamamos de afeto, uma emoção acompanhada de sintomas fisiológicos colaterais. Quer dizer: uma atividade cardíaca aumentada, uma respiração acelerada, fenômenos motores - é isso que sentem. Mas quando se trata de uma reação de sentimento, muitas vezes nem o percebem, pois a reação de sentimento não vem acompanhada de fenômenos psicofísicos” (JUNG, Sobre Sentimentos e a Sombra: sessões de Winterthur, Editora Vozes, 2014, p. 10).

sábado, 3 de janeiro de 2015

Condorino aprende a voar


Metáfora  da autoria de Djalma Argollo

A cordilheira dos Andes se estende como uma imensa coluna vertebral por todo o imenso continente Sul Americano. Apesar da grande altura dos seus picos, ela ainda está sendo erguida pelo ciclópico embate entre as placas tectônicas da América do Sul e do Pacífico, por isso, terremotos de magnitudes variadas, são comuns por toda a sua extensão. 
No momento em que começo esse conto podia-se ver, nas encostas da mais alta montanha, vários ninhos que ostentavam ovos de Condor, a imponente ave cujos ancestrais acompanharam o nascer e morrer de diversos povos andinos, com seus rituais macabros de sacrifícios humanos, cujos esqueletos mutilados são escavados hoje em dia por arqueólogos estarrecidos. Os Condores testemunharam o surgimento do Império Inca, sua expansão, domínio e escravização de diversas tribos, e sua destruição, igualmente cruel, nas mãos sangrentas do ambicioso e perverso Pizzarro.
Numa sincronia ditada pelo ciclo do acasalamento, dos ovos chocados pelas Condores fêmeas começaram a nascer os filhotes que, naturalmente, vinham ao mundo delicados e frágeis, sem a imponência dos seus pais.
Condorino foi o último dos filhotes de todos os ninhos da região a quebrar a casca do ovo onde se desenvolveu. Assim, quando começou sua jornada existencial, todos os demais filhotes já estavam adiantadas etapas de crescimento.
Alimentado e protegido pelos pais, como os demais filhotes da vizinhança, Condorino se desenvolvia rapidamente. Sem muita coisa para fazer, senão comer os alimentos que seus pais regurgitavam bem fundo em seu bico ansioso e exigente, ficava observando as acrobacias aéreas dos Condores, no azáfama incessante da coleta de alimentos para si e para os filhotes. Seguindo com os olhos suas piruetas sofisticadas. Imaginava como seria bom voar daquela maneira. E se perguntava como conseguiam volitar pelos espaços, sem nada onde se sustentar. Interrogava os pais se um dia ele também voaria, e eles respondiam:
- Claro, filho, você também é um condor.
Escutava atento, mas sentindo a própria fragilidade, duvidava que isso fosse possível.
- Como é que se voa?
Indagou um dia à sua mamãe.
- Nós aproveitamos as correntes de vento que sobem e se espalham pelos espaços.
Respondeu ela, afagando-o com o bico.
- Por quê, pela manhã, você e o papai ficam parados à beira do ninho e, de repente se lançam ao espaço?
- Esperamos que o ar quente suba dos vales lá embaixo, pra dar sustentação às nossas asas. 
Retrucou a bela fêmea de Condor, com um sorriso.
E, de conversa em conversa, papai e mamãe Condor ensinavam-lhe as técnicas de voo usada pela sua espécie. Mas Condorino não conseguia entender nada.
Quando ele queria saber quando e como daria o primeiro voo, os pais lhe diziam, dando sonora gargalhada:
- Na hora certa você verá!
Num ninho próximo ao de Condorino, morava Condoreto, um amigo mais velho, com o qual conversava bastante, e de quem gostava muito. Certo dia, Condorino presenciou uma cena que o deixou transido de pavor: estava o amigo se divertindo em comer as pragas que infestavam-lhe o ninho, quando os pais chegaram. Era meio dia, e o sol a pino iluminava os picos cobertos de eterno gelo.
- Meu filho, chegou a hora de assumires tua vida. Até hoje viveste sustentado por nós, mas, de hoje em diante és adulto e terás de assumir tua vida e teu destino, como Condor que és.
É claro que Condoreto não entendeu nada, e Condorino que tudo escutava, menos ainda. E mais, viu estarrecido e apavorado quando a mãe de Condoreto o forçou a ir para a beirada do ninho e, sem mais aquela, o empurrou para o abismo. Ouviu o grito agoniado do amigo se perder na distância, enquanto caia vertiginosamente. Fechou os olhos aterrorizado. Por isso não presenciou quando o amigo, depois de cair algum tempo, abriu as asas e planou graciosamente de um lado para o outro, se perdendo depois na distância, por entre os picos menores que reluziam ao sol.
Condorino contou aos pais o que acontecera. Não podia entender como uma mãe era capaz de tal crueldade. Seus pais sorriram e nada disseram. Nos dias que se seguiram, Condorino teve pesadelos recorrentes, nos quais se via empurrado do ninho pela mãe, transformada numa águia perversa e sem entranhas, de olhos vermelhos e maus; enquanto seu pai, igualmente deformado, gargalhava sinistramente. Tombava, então, das alturas, vertiginosamente até o vale. Porém, antes que se chocasse contra o chão, acordava assustado e tremendo. Dia a dia ele via as mães empurrarem seus filhotes, escutava seus gritos, e fechava os olhos, tremendo de pavor.
Numa dessas ocasiões resolveu ficar de olhos abertos e viu que o filhote, depois de cair vários metros, saiu voando, sem muita firmeza, mas aos poucos ganhou altura e planou graciosamente pelos espaços. Ficou feliz que o filhote tivesse escapado, pois não vira o que acontecera com os outros. Como o mesmo fato se repetisse, em todos os ninhos, concluiu que esse também era o seu destino. Certamente ele morreria, pois não se sentia capaz de voar. Aterrorizado, passou a ficar amedrontado toda vez que que os pais chegavam ao ninho.
Um dia, percebeu que chegará a sua hora. Sua mãe, e seu pai lhe disseram:
- Filho, agora você vai assumir sua vida. 
E apesar de seus gritos e choro convulsivo, sua mãe, impiedosamente, o empurrou no abismo que, qual enorme e hiante boca, começou a engoli-lo.
Imobilizado pelo medo, caia rumo a uma morte certa quando ouviu uma voz conhecida a lhe gritar:
- ABRA AS ASAS, CONDORINO!
Abriu os olhos e, na vertigem da queda, viu seu amigo Condoreto, voando ao seu redor.
Fazendo um imenso esforço, abriu o mais que pôde suas grandes asas e sentiu um solavanco, causado pelo impacto das correntes quentes que subiam das planícies onde corria o Rio Paraná, que fez estremecer todo o seu corpo. Cambaleou por algum tempo, vendo-se às vezes de cabeça para baixo, às vezes de cabeça para cima.
- VAMOS, MANTENHA-SE FIRME!
Gritou Condoreto.
- MAS EU NÃO SEI VOAR!
Gritou apavorado, sentindo que o chão se aproximava, rapidamente.
- ENTENDO VOCÊ, MAS SAIBA QUE TODOS NÓS, CONDORES, NASCEMOS SABENDO VOAR. É NOSSO INSTINTO. ENTREGUE-SE, A ELE!
Essas palavras calaram fundo na mente de Condorino. Ele se lembrou do filhote que vira, depois de cair algum tempo, sair voando. Aquela visão ganhou força em sua mente e, apesar do medo que sentia, deixou que o sentimento de satisfação ao ver o outro começar a voar, lhe empolgasse o ser! O medo desapareceu como por encanto, sentiu-se motivado pela certeza de que podia também voar. Se outros, como Condoreto podiam, ele, como Condor que era, também podia! Então, quando faltavam poucos metros para se esborrachar numa morte horrível, sentiu-se ascender, ganhando altura e, alegre, percebeu-se voando, como se sempre o tivesse feito. 
Enquanto Condoreto voava em torno dele, sorrindo alegremente, pôs-se a gargalhar de puro alívio: afinal, Condoreto, que aprendera antes dele às custas de uma dura mas necessária experiência, tinha razão: os Condores nasceram para voar. É só acreditar no instinto e deixar-se levar que tudo acontece naturalmente.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Esboço Biográfico de C. G. Jung

(Do Livro Jung e a Mediunidade, de Djalma Motta Argollo)

Carl Gustav Jung nasceu em 26 de julho de 1875, em Kesswil, cantão da Turgóvia, uma pequena cidade Suíça, às margens do Lago Constança, acidente geográfico que serve de fronteira entre esse país e a Alemanha. Seu Pai, Johannes Paul Achilles Jung, era pastor protestante e sua mãe, cujo nome de solteira era Emilie Preiswerk é descrita como uma mulher de gênio difícil, autoritária e, o que realmente interessa a esse estudo, médium. Aliás, a mediunidade foi comum na sua família pelo lado materno, Como veremos mais adiante. Seis meses após o nascimento do filho, mudaram-se para o presbitério do castelo de Laufen, perto da cidade de Basiléia, na região das quedas do rio Reno, na sua margem Suíça. Quatro anos mais tarde, em 1879, uma nova mudança aconteceu: agora para Klein-Hüningen, próximo à Basiléia. Ali, em 1884, nasceu Johanna Gertrud, irmã de Jung que veio a falecer em 1935.
Da mãe, ele guardava uma imagem terna, cheia de admiração:

Minha mãe foi extremamente boa para mim. Ela irradiava um grande calor animal: era corpulenta, extremamente simpática. Sabia ouvir e gostava de conversar, num alegre murmúrio de fonte. Tinha evidentes dons literários, bom gosto, profundidade. Tais qualidades, entretanto, não se manifestavam exteriormente; permaneciam ocultas numa velha senhora gorda, muito hospitaleira, que cozinhava muito bem e tinha muito senso de humor (Jung, 1997, p. 54).

O pai de Jung permanece em suas lembranças como um homem bom, embora de personalidade fraca, sem grandes ambições na vida, um Pastor sem fé no que pregava, o que lhe causava terríveis conflitos íntimos. Na adolescência de Jung, pai e filho tinham muitas e acerbas discussões. Com a morte do pai, Jung, já na universidade, assumiu o posto de chefe de família. Ele narra que a personalidade número 2 (provável interferência mediúnica) de sua mãe lhe disse algum tempo depois: “Ele desapareceu na hora certa para você”; isto parecia significar: “Vocês não se compreendiam e ele poderia ser um obstáculo para você” (Jung, 1997, p. 92). Por aí se pode perceber o clima emocional atribulado naquela família.
Jung foi, durante a infância, perturbado por conflitos, ansiedades e temores. Os pesadelos eram freqüentes e, também, sofreu inúmeros acidentes, que atribuiu em suas memórias a um desejo inconsciente de suicídio.
As crises de dupla personalidade que o assaltavam desde a mais remota infância, batizadas como personalidade 1 e personalidade 2, podem ter como origem a intromissão de lembranças de vidas pretéritas, como sua autobiografia leva a suspeitar, ou a um processo obsessivo com origem em mentes espirituais em desequilíbrio, conforme os ensinos espíritas.
Até sua juventude, o cotidiano de Jung caracterizou-se também por grave crise religiosa, fruto de problemas que devia trazer no inconsciente, aguçados, ou até mesmo estimulados, pela atitude paradoxal de seu pai ser um Pastor sem fé, o que naturalmente o levava a viver um insolúvel dilema existencial. Suas fantasias e sonhos denunciavam esses conflitos.
Aos onze anos, em 1886, ingressou no Liceu de Basiléia, onde realizou seus estudos preparatórios, o que denominamos de primeiro e segundo graus. Desde muito cedo, Jung apresentou intensa curiosidade intelectual, transformando-se num leitor assíduo e de múltiplos interesses, o que lhe proporcionou acumular vasto cabedal de informações, as quais se demonstraram de grande valor em seu trabalho posterior.
Sua vida de colegial foi marcada por atritos com colegas e professores, sendo que estes últimos não conseguiam reconhecer-lhe a genialidade precoce, atribuindo suas dissertações bem elaboradas a plágios ou cópias, o que muito o amargurava.
Quando teve de se definir por uma carreira de nível superior, Jung se dividiu entre a arqueologia e as ciências naturais. Terminou por escolher a medicina, curso que iniciou em 18 de abril de 1895. Ainda nesse ano, fazendo parte da confraria estudantil Zofingia – à qual seu pai pertencera na época de estudante – sobressaía pelas exposições e debates sobre as idéias de Mesmer, Swedenborg, Lombroso (1835-1909) e Schopenhauer. Apontava as falhas da filosofia materialista e defendia o estudo científico dos então chamados “fenômenos psíquicos”. No ano seguinte à sua entrada na universidade, faleceu-lhe o pai.
Entre 1896 e 1899, proferiu cinco palestras na Fraternidade Zofingia, sendo a primeira sobre os fenômenos do espiritismo, como será detalhado mais adiante. E, entre 1898 e 1900 participou de reuniões mediúnicas com familiares, tendo como médium sua prima de 15 anos Hélène Preiswerk.
Em 1900, depois da leitura do Manual de Psiquiatria de Kräfft-Ebing, decidiu-se pela especialização nessa área. No mês de dezembro do mesmo ano, assumiu o lugar de assistente no hospital de Burghölzli, em Zurique. Nesse ano cumpriu, também, seu primeiro período de serviço militar. Em 1902 publicou sua tese de doutorado: “Sobre a Psicologia e Patologia dos Fenômenos Chamados Ocultos”.
No Hospital Psiquiátrico do Cantão de Zurique, entre 1902 e 1906, desenvolveu com alunos e colegas estudos sobre associação de idéias, independentemente das construções teóricas de Freud a esse respeito, provando cientificamente sua validade para a descoberta dos complexos - termo que criou – da psiquê. Estes estudos lhe valeram um convite para apresentá-los na Clark University, nos Estados Unidos, em 1909, onde foi agraciado com o título de doutor honoris causa. No período em que trabalhou naquele hospital, Jung desenvolveu notáveis estudos em torno da esquizofrenia, principalmente no que diz respeito às personalidades múltiplas, que os psicanalistas negaram por muito tempo, e que acabaram sendo reconhecidas como uma realidade, e não criações enganadoras de pacientes mitômanos.
Em 14 de fevereiro de 1903 Jung casou-se com Emma Rauschenbach, com quem veio a ter cinco filhos. Nesse mesmo ano, relendo a Interpretação dos Sonhos, de Freud – lido por ele três anos antes sem maiores conseqüências – verificou afinidade entre idéias desse autor e suas, passando a divulgá-lo e defendê-lo no meio universitário onde, então, era considerado persona non grata.
Em 1906, enviou a Freud seu livro com as experiências e conclusões em torno da associação de idéias, iniciando-se aí uma correspondência entre os dois. Em 1907, a convite de Freud, foi a casa deste, nascendo aí uma amizade e colaboração que duraram até o rompimento definitivo em 1913, com o aprofundamento de divergências teóricas inconciliáveis.
Carl Gustav Jung desenvolveu o conceito de inconsciente, desdobrando-o em inconsciente pessoal e inconsciente coletivo, a partir de suas experiências e observações. Descobriu e estudou os arquétipos do inconsciente coletivo, material que verificou ser comum aos seres humanos, e que se manifestam através de recursos simbólicos nos mitos e nas figuras míticas de todos os povos. Suas contribuições à compreensão do psiquismo ainda estão sendo desdobradas por psicólogos atuais, graças a proficuidade dos conceitos que elaborou ao longo de sua vida de estudioso pertinaz da alma humana. Um fato importante foi o ter quebrado a rigidez e frieza da relação médico-paciente comum na psicanálise, substituindo-a por uma inter-relação dinâmica e compartilhada, pois ambos se envolvem num processo que não é apenas de “cura” de um – o paciente – mas de desenvolvimento de valores profundos e fundamentais de ambos.
Dentre seus estudos estão aqueles em torno dos fenômenos parapsicológicos, ou mediúnicos, para os quais buscou elaborar uma teoria, a da sincronicidade, em parceria com o cientista e Prêmio Nobel de física Wolfgang Pauli (1900-1958), utilizando-se do princípio de indeterminação ou incerteza [1] de Werner Heisenberg (1901-1976).
Depois de toda uma vida dedicada à descoberta de meios e modos de trazer mais alegria e plenitude ao ser humano, Carl Gustav Jung faleceu no dia 6 de junho de 1961, em Küsnacht, onde foi cremado e suas cinzas depositadas no túmulo da família.


[1] Princípio de mecânica quântica, enunciado em 1929: é impossível discernir simultaneamente e com alta precisão a posição e o momento de uma partícula subatômica.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

A história do rato saltador (início)

Pequena introdução 

O inconsciente é fonte de lições profundas que servem de orientação às deliberações das consciências individuais ou coletivas. O conto a seguir, saído do imaginário dos índios norte-americanos é um precioso exemplo da ação do inconsciente coletivo dos nativos americanos, que Jung teve oportunidade de estudar, quanto esteve naquele pais, a convite, para ser premiado academicamente pelas suas experiências com associações de palavras, que levou à descoberta doa "complexos de tonalidade afetiva. 
Observe-se bem que no conto os arquétipos aparecem em forma animal, e como aparece o problema da individuação, na forma de busca da "montanha mágica".
Assim como na vida, as buscas exigem esforços e sacrifícios do que normalmente é um bem considerado extremamente precisos. Neste conto encontramos afinidades com os mitos gregos, como por exemplo, o mito de Édipo  cuja necessidade de encontrar suas respostas, forçou-o a mergulhar no próprio íntimo, evitando o ofuscamento da luz natural. É o mesmo que podemos encontrar no mito de Tirésias, cuja que foi obrigado, à sua revelia, a adquirir a visão que transcende o tempo e o espaço.
Verificamos que, em última análise, o conto diz respeito ao "processo de individuação" os arquétipos envolvidos são representados por animais, como o Búfalo que lembra o Touro, é representado na  forma de Bisão, desde a Pré-história, nas pinturas das cavernas, usadas pelo Homo Sapiens, como trois Frere, Altamira, Fontechevade etc. E por toda História a mesma espécie aparece como símbolo da força e do poder criativo. 
Na Grécia é o presente de Posídon, na Ilha de Creta, que da origem ao Minotauro, graças à paixão terofílica de Pasifae, esposa de Minos. Na religião mitráica, ele representa a divindade que se sacrifica pelo bem do homem, e cujo sangue purifica. 
No Antigo Testamento fornece o ídolo que o povo hebreu passa a adorar, na ausência de Moisés, que subira ao Sinai para receber os Mandamentos divinos. No Cristianismo, o Boi, que é da mesma espécie do Touro, representa o evangelista Lucas.
Até recentemente, ele era enfrentado nas arenas, servindo de sparring para que o homem demonstrasse ser o mais poderoso do animais. 
Agora, mergulhe seus olhos neste conto e deixe sua imaginação lhe apontar qual lição específica ele traz para sua vida, e como pode modificar o seu destino. 



Lenda de Índios Norte-Americanos

Era uma vez um rato. Era um rato ocupado, buscando em toda parte... e olhando. Ele era ocupado como são todos os ratos, ocupado com coisas de ratos. Mas um dia, ele ouviu um som singular. Levantou a cabeça, esforçando-se por enxergar... e surpreendeu-se. Um dia correu até um rato seu conhecido e perguntou-lhe:
- Você está ouvindo um rugido em suas orelhas, meu irmão?
- Não, não. – Respondeu o outro rato sem tirar o seu nariz atarefado do solo. – Não ouço nada. Agora estou ocupado. Fale comigo depois.
Ele fez a outro rato a mesma pergunta e o rato olhou-o com estranheza. (continua)