Djalma Argollo

Djalma Argollo
Terapeuta Junguiano

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

FOCALIZANDO A ALMA: KAMAR AZ-ZAMAN E A PRINCESA BUDUR

FOCALIZANDO A ALMA: KAMAR AZ-ZAMAN E A PRINCESA BUDUR: KAMAR AZ-ZAMAN E A PRINCESA BUDUR Conta-se que havia na Pérsia, em tempos idos, um rei chamado Chahriman, dono de exércitos e riquezas ...

KAMAR AZ-ZAMAN E A PRINCESA BUDUR



KAMAR AZ-ZAMAN E A PRINCESA BUDUR

Conta-se que havia na Pérsia, em tempos idos, um rei chamado Chahriman, dono de exércitos e riquezas e poder, que tinha um filho tão lindo que o chamou Kamar Az-Zaman, Lua do Tempo. Um dia, o pai disse-lhe: "Meu filho, desejaria ver-te casado e provido de descendentes que continuarão nossa linhagem." Kamar Az-Zaman mudou de cor e respondeu: "Pai, não sinto inclinação para o casamento, e meu coração não se regozija na companhia das mulheres. Li nos livros dos sábios tantas crônicas sobre a perfídia desse sexo que prefiro morrer a viver com uma mulher." Aconselhado pelo vizir, o rei deixou passar um ano antes de voltar ao assunto. Mas quando a ele voltou, achou o filho tão oposto ao casamento quanto antes. "Como estão iludidos os pais quando desejam filhos," lamentou o rei. "Pois um filho é uma decepção e uma mágoa encarnadas." Ora, vivia na mesma época um rei da China chamado Ghayur que tinha uma filha mais esplêndida que a aurora e que ele chamou Budur, Luas -diversas luas reunidas numa só. Amava-a tanto que mandara construir para ela sete palácios, cada qual diferente dos outros: o primeiro era de cristal; o segundo, de mármore; o terceiro, de ferro chinês; o quarto, de pedras preciosas; o quinto, de prata; o sexto, de ouro; e o sétimo, de jóias. Disse um admirador: "Vi a jovem passeando em seus palácios; será surpreendente que tenha perdido a razão?" Todos os reis procuraram essa beleza incomparável para seus filhos; mas cada vez que o pai Ihe falava em casamento, Budur respondia: "Sou a rainha e a dona de mim mesma. Como pode meu corpo, que mal agüenta o toque da seda, tolerar o contacto rude de um homem`?" Quando seu pai insistia, ela ameaçava matar-se. Para castigar a desobediência do filho, o rei Chahriman o tinha condenado a viver numa torre antiga abandonada, atrás da qual havia um poço onde se refugiara uma jovem Afrita da descendência de Ibliss, chamada Maimuna. Era a filha de Dimiryat, rei dos gênios subterrâneos. Uma noite, Maimuna avistou luzes na torre inabitada e, curiosa, quis ver o que lá acontecia. Voou e entrou nos aposentos iluminados e viu Kamar Az Zaman deitado seminu na cama. As palavras não conseguem descrever sua surpresa e alegria. Ela nunca havia visto beleza igual. Ficou uma hora a contemplá-lo, depois depositou beijos delicados em seus lábios, olhos, faces e saiu descontrolada. Cruzou na saída com o Afrit Dachnack, que chegava da China onde ficara deslumbrado com a beleza da princesa Budur. Contou sua aventura a Maimuna. Maimuna recebeu suas confidências com escárnio: "Tuas observações acerca dessa jovem desgostam-me. Como ousas compará-la ao jovem que eu amo? Ele é tão lindo que, se o visses apenas em sonho, cairias como um epilético e roncarias como um camelo." Para pôr fim à discussão, os dois gênios decidiram visitar os dois jovens e comparar-Ihes a beleza. Apostaram mil dinares no vencedor. Maimuna levou então o Afrit até o aposento de Kamar Az-Zaman, e ele disse: "Maimuna, compreendo teu entusiasmo. Nunca vi, com efeito, tantas perfeições reunidas num só jovem; contudo, digo-te que o molde em que o fabricaram foi usado para produzir uma cópia feminina, que é a princesa Budur, filha de Ghayur." Maimuna ficou furiosa e disse ao Afrit: "Voa rápido e traze a tal maravilha para cá, a fim de que possamos colocar os dois jovens lado a lado e compará-los." Dachnack apanhou seu chifre e sumiu no espaço como uma flecha. Uma hora depois, estava de volta carregando a princesa adormecida, vestida com uma simples camisola. E os dois feiticeiros levaram-na e estenderam-na ao lado do príncipe Kamar Az-Zaman. Maimuna teve que admitir que os dois eram iguais -menos nas partes que fizeram deles homem e mulher. Assim mesmo, cada Afrit afirmava ter ganho a aposta e, para resolver sua divergência, decidiram recorrer a um árbitro. Imediatamente apareceu um Afrit de horrível feiúra. Tinha seis chifres e três caudas; um de seus braços media dez metros de comprimento; o outro, apenas dois. E seu zib era quarenta vezes maior que o zib de um elefante. Seu nome era Fakrach Ibn Atrach, da linha de Abu-Hanfach. Convidado a indicar o mais belo dos dois, o gênio contemplou-os longamente e, constrangido, reconheceu: "Por Alá são iguais em beleza. A única diferença entre eles refere-se ao sexo. Se assim mesmo insistirem em descobrir alguma superioridade num deles, acordemo-los, enquanto permanecemos invisíveis, e aquele dos dois que manifestar maior paixão pelo outro terá reconhecido que os encantos do outro são mais poderosos." Os três concordaram e Dachnack, transformando-se numa pulga, mordeu Kamar Az-Zaman no pescoço. Kamar Az Zaman, meio-acordado após a irritação de seu pescoço, deixou a mão cair, e ela pousou na perna nua de Budur. O jovem abriu os olhos, mas eles voltaram logo a fechar-se, ofuscados que foram pela visão da beleza. Encantado, levantou a cabeça e contemplou longamente a desconhecida que dormia a seu lado. Depois, virou-se e exclamou: "Que traseiro glorioso E começou a acariciar-lhe o ventre, os seios, as pernas, as nádegas. Devemos acrescentar que fora Dachnack quem provocara um sono profundo em Budur para permitir ao jovem manipulá-la à vontade. Kamar Az-Zaman aplicou seus lábios nos de Budur e procurou acordá-la, mas em vão. Concluiu: "Não posso esperar. Devo penetrar nela enquanto dorme." Mas pensou de repente que provavelmente o pai mandara colocar a jovem lá para provocá-lo, e que ele estava observando-o de algum esconderijo. Se tocasse nela, o pai o censuraria por não querer mulher para assegurar a sua posteridade, enquanto a queria para o divertimento e o vício. Virou, pois, as costas e voltou a dormir. Budur acordou finalmente e, já apaixonada por Kamar Az Zaman, pediu-lhe: "Por favor, abre os olhos, ó mestre da beleza. Só tu conseguiste acender um fogo em mim. Oh, por que não acordas? Acorda, senão vou morrer." E começou a acariciá-lo. De repente, sua mão tocou em algo que ela não conhecia. E a coisa começou a crescer em sua mão e a provocar nela novas sensações. Comparando seus dois corpos, compreendeu o papel daquele órgão e introduziu-o onde cabia. Os três Afarit acompanhavam tudo isso sem perder um gesto. Deixaram a operação chegar ao fim, depois aproximaram-se da cama, levantaram a moça sobre as espáduas, voaram com ela e a depositaram em sua cama no palácio de seu pai na China. E foram embora em direções diferentes. Pela manhã, Kamar Az-Zaman acordou, a mente cheia das imagens da noite. Não encontrando a moça, teve a certeza de que se tratava de uma manobra do pai para levá-lo a casar-se. Chamou seu escravo e perguntou-lhe: "Aonde levaste a jovem, ó Sauab?" "Que jovem, meu senhor?" perguntou o escravo. "Hoje, não agüento tuas mentiras, velhaco abominável" retrucou Kamar Az-Zaman. Apanhou o escravo, estendeu-o no chão e pôs-se a bater nele, dizendo: "Vou bater em ti até que confesses onde está a jovem ou até que morras." Uma vez coberto de sangue e tendo um braço quebrado, o escravo gritou: Por favor, para de bater em mim, e confessarei tudo." Assim que o príncipe parou de bater nele, o escravo pediu licença para ir lavar o sangue e aproveitou para correr ao palácio e dizer ao rei, chorando, que Kamar Az-Zaman tinha enlouquecido. E descreveu ao rei e ao vizir as alucinações que presenciara.O rei, após insultar o vizir, responsabilizando-o por tudo, mandou-o verificar o que se passava. Kamar Az-Zaman, considerando o vizir de conluio com seu pai, naquela farsa, exigiu dele que lhe trouxesse a moça. Como o vizir negava tudo, o príncipe bateu nele também e lhe arrancou fios da barba. E o ministro voltou à presença do rei num estado lamentável, repetindo que Kamar Az-Zaman tinha enlouquecido. Insultando o novamente, o rei correu à torre para ver o filho. Achou-o tranqüilo, lendo o Alcorão. "Meu filho, disse o rei, por incrível que pareça, esse nojento escravo e esse vizir maluco alegam que enlouqueceste, pois os acusas de ter levado uma mulher que dormiu contigo aqui à noite." -Pai, respondeu o filho, não agüento mais essa farsa. Tenho provas do que digo. Primeiro, este anel que ela me deu em troca do meu. Depois, quando acordei, tinha sangue embaixo do umbigo, o sangue da virgem que se entregara a mim. A água com que lavei o sangue está ainda no banheiro. Fiquei tão apaixonado por ela que, se não conseguir encontrá-la e casar-me com ela, ó pai, ficarei doente até morrer. O rei examinou a água e convenceu-se da veracidade das palavras ao filho, mas não conseguia penetrar o mistério e muito menos adivinhar quem era a moça e onde procurar por ela. E o filho foi definhando. Na China, a noite estava acabando quando os três Afarit devolveram a dama Budur a seu leito. Ao acordar pela manhã, sorriu e com os olhos ainda fechados estendeu os braços para apertar seu amante, mas só abraçou o ar. Não encontrando ninguém na cama, emitiu um grito tão agudo que sua governanta e suas nove escravas acorreram para junto dela. "O que aconteceu, minha ama?" perguntou a governanta. -Perguntas como se não soubesses, astuciosa bruxa. Dize-me logo onde está o jovem mais belo que a lua que passou a noite comigo e a quem entreguei meu corpo, meu coração e minha virgindade. Essa declaração causou tamanho escândalo que toda a corte foi perturbada. O rei acorreu aos aposentos da filha e disse-lhe: "Minha querida, que alucinações tomaram conta de ti? Por que essa conduta indecorosa?" Por resposta, Budur rasgou a camisa, do pescoço até os pés, bateu nas faces e afundou num mar de lágrimas. O rei chamou então todos os sábios, astrólogos, doutores e alquimistas do reino e disse-lhes: "Minha filha Budur está em tal e tal estado. Quem conseguir curá-la a terá por esposa e herdará o trono depois de mim. Mas se aproximar dela sem a curar, terá a cabeça cortada." Ora, a princesa Budur tinha um irmão de leite, Marjan, que havia estudado a magia e a feitiçaria em livros hindus e egípcios. Visitou-a em segredo, munido de um astrolábio, de livros mágicos e de uma lâmpada, e entendeu que Budur estava apaixonada por um jovem desconhecido, e não tinha nada mais. O único problema era descobrir o jovem. Marjan, que amava a irmã, decidiu tudo abandonar e percorrer os países na esperança de localizar, por um acaso feliz, o homem que lhe devolveria a alegria de viver. Para ajudá-lo nas buscas, Budur entregou-lhe o anel de Kamar Az-Zaman que lhe ficara no dedo. Marjan viajou de cidade em cidade e de ilha em ilha, ouvindo em toda parte notícias e rumores sobre a estranha alienação mental da princesa Budur. Seis meses depois, chegou à terra de Kholidan e lá começou a ouvir a história de Kamar Az-Zaman, vítima de alucinações que pareceram a Marjan similares às da princesa Budur. Um dia, encontrou-se com o vizir do rei Chahriman, o qual, conversando com ele, ficou impressionado com seus conhecimentos em todos os campos, notadamente na medicina, e pensou: "Este moço será sem dúvida capaz de curar o filho de meu soberano." E convidou-o a visitar o palácio real. Na primeira entrevista que teve com Kamar Az-Zaman, Marjan convenceu-se de que ele era o jovem que sua irmã de leite procurava e que ela era a jovem que o príncipe procurava. Mostrou a Kamar Az-Zaman o anel de Budur. No mesmo instante, o príncipe curou-se completamente, e as cores da juventude voltaram-lhe às faces. Sem pedir licença ao rei, os dois jovens iniciaram imediatamente a viagem rumo à terra da princesa Budur. Quando lá chegaram, havia já quarenta cabeças penduradas na praça pública -as cabeças daqueles que haviam tentado curar a princesa sem o conseguir. Na entrada do palácio da princesa, os eunucos encarregados da segurança olharam com pena para esse novo pretendente, tão belo e que breve iria ter a cabeça cortada. Mas ele apanhou um papel e escreveu: "De Kamar Az-Zaman, filho do sultão Chahriman, para a princesa Budur, filha do rei Ghayur. Se tivesse que descrever toda a paixão de meu coração, não haveria bastante tinta no mundo. Contudo, se a tinta faltar, meu sangue escreverá o resto. Com esta mensagem, envio-te teu anel como prova indiscutível de que sou o jovem cujo coração transformaste em incêndio e em tempestade e que chora e clama por ti. Kamar Az-Zaman,
O príncipe colocou o bilhete e o anel num envelope, selou-o e entregou-o ao eunuco. O escravo transmitiu-o a sua ama, dizendo: "Há um jovem astrólogo atrás da cortina, tão audacioso que alega ser capaz de curar as pessoas sem as ver. Enviou-te este papel." Mal a princesa abriu o envelope e reconheceu seu anel, gritou de alegria e, empurrando o eunuco, correu até o amante e lançou-se nos seus braços. Beijaram-se como dois pombos que havia sido separados pela maldade do destino O eunuco correu a informar o rei: ‘ aquele jovem astrólogo é mais sábio que todos eles. Curou a princesa Budur antes mesmo de a ter visto." O rei foi ao aposento da filha e, vendo que estava de fato curada, beijou-a entre os olhos, abraçou Kamar Az-Zaman e perguntou-lhe de onde vinha. "Venho de Kholidan. Sou o filho do rei Chahriman." E contou toda a história. -Por Alá, comentou o rei, essa história é tão maravilhosa que se fosse escrita com uma agulha no canto interno dos olhos, ensinaria a prudência, a reflexão, mas também a audácia e a esperança. Mandou vir o cádi e as testemunhas e fez redigir o contrato de casamento entre Budur e Kamar Az-Zaman. A cidade foi decorada e iluminada durante sete dias e sete noites. O povo comeu, bebeu e se regozijou. E os dois enamorados amaram-se à vontade no meio dos festejos, agradecendo Àquele que os tinha feito um pelo outro. Numa noite, Kamar Az-Zaman viu seu pai num sonho, dizendo-lhe: "É assim que me abandonas, ó Kamar Az-Zaman? Vê , estou morrendo de saudade." Quando acordou, disse à princesa Budur: Àmanhã devemos tomar o caminho de meu reino onde meu pai está doente. Apareceu-me em sonho, e está esperando por mim, chorando." -Ouço e obedeço, disse Budur com meiguice. E logo foi procurar o rei. "Pai, disse-lhe, solicito tua compreensão para que acompanhe meu marido à terra de seus pais." -Não tenho objeção, respondeu o rei, desde que nos venhais visitar de ano em ano. A princesa beijou a mão do pai, agradeceu-lhe a bondade e chamou Kamar Az-Zaman, que fez o mesmo. Depois, viajaram até o reino de Chahriman onde foram recebidos com grandes festejos e regozijos. Cada ano, Budur, acompanhada do marido, ia visitar os pais. E todos viveram em perfeita harmonia até seu ultimo dia. (História do livro “As Mil e Uma Noites Os mais belos contos da maior obra de ficção de todos os tempos! Tradução de Mansour Challita).

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Projeções

Todos nós, seres humanos, vivemos exclusivamente na esfera psíquica. O mundo exterior é apenas um conjunto de sensações representadas em nossa mente por configuações específicas. Essas "representações" são pessoais e intransferíveis. Ou seja, o mundo exterior, para cada um de nós é único e pessoal; não temos como saber se as representações dos outros humanos são "iguais" às nossas, ou não. Na verdade "iguais" não podem ser, pois o sistema nervoso de cada um possui diferenças e configurações individuais. Será um evento probabilístico quase improvável, encontrarmos duas pessoas com um sistema nervoso fisiológica e estruturalmente iguais. O quase improvável aí fica por conta do fato de que vivemos em mundo estruturado no princípio da incerteza, como nos mostra a física quântica. No máximo podemos ter representações assemelhadas, mas nunca iguais. Muita gente se confunde com o fato de expressarmos através de palavras ou gestos que estamos percebendo fenômenos do mundo exterior, com o mesmo formato, tons e matizes. Isso é questionável, pois quem pode afirmar que estamos temos a mesma percepção, mesmo quando elas parecem coincidir nos detalhes?
Por exemplo, eu posso identificar uma cor, e outra pessoa, sem saber, fazer a mesma indicação. Pode-se argumentar: "E agora? Duas pessoas diferentes (e podem ser inclusive de países em lados opostos do mundo) tiveram a mesma percepção, logo a cor é a mesma!. Ledo engano, as duas podem estar percebendo o mesmo espectro luminoso, porém com nuances diferentes. E se compararem com uma palheta de cores, vão coincidir nas cores porque os matizes pessoais serão semelhantes ao que estarão percebendo na palheta.
Ora, como nossa visão de mundo é resultante do conjunto de percepções que configuram nosso psiquismo, todos temos a nossa própria e ela nunca será igual a de outra pessoa. Isso produz as divergências que são comuns na convivência, mesmo entre aqueles que professam crenças e atividades semelhantes.
Esse relativismo perceptivo está na base de nossas diferenças relacionais, em todo o campo de atividade que caracteriza a sociedade humana. E ele deve conduzir cada um de nós a ter sempre em mente que, sendo o percebido  individual e intransferível, a "verdade" como algo em si, não pode existir (e mesmo que existisse seria impossível de ser apreendida, dado o fato de que nosso sistema nervoso precisaria ser de uma qualidade 100% precisa, 100% do tempo); mas existe sim "nossa" verdade, a qual é fruto da filosofia de vida, que o conjunto das nossas representações (o qual forma nossa experiência existencial), e que serve para nortear nossa existência. É claro que podemos aprimorar nossa filosofia de vida, confrontando as nossas representações sobre assuntos específicos, com as representações que outros nos transmitem através da palavra escrita, falada ou comunicações artísticas. Mas temos de estar cientes que o que entendemos das representações expostas é apenas isso: nosso entendimento do que nos foi comunicado, mas sem que seja exatamente o que o outro realmente comunicou. Nossa percepção das representações alheias tem a ver com a nossa visão de mundo, o que nos faz "entender" aquilo que se afina com nosso modo de ser, sentir e pensar.
Concluindo: como não temos certeza absoluta de que nossas representações refletem aquilo que foi por nós percebido, isso nos obriga a uma reflexão constante sobre o fato de que o que pensamos sobre o mundo, seus fenômenos e as pessoas com quem interagimos breve ou constantemente, são pensamentos próprios e que podem nada ter a ver como a realidade em si. Enfim, como disse Einstein, a percebpção de tudo o que acontece é relativo a quem observa. Ou seja, o que observamos é "nossa" verdade, nada mais que isso.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

A MORTE É UM DIA QUE VALE A PENA

Paliativo, uma técnica de atender quem está em condição terminal. Um video que encanta e causa tristeza, simultaneamente, por lidar com o tema tabu da morte. Ana Quintana Arantes, revela uma face importante desse fenômeno que, mais dia, menos dia, acontece com todos nós.


 

domingo, 1 de março de 2015

Sentimento e emoção


“...a grande infelicidade de nossa cultura é o fato de sermos estranhamente incapazes de perceber os nossos próprios sentimentos, quer dizer, sentir as coisas que nos dizem respeito. Vemos com tanta frequência pessoas passarem por cima de acontecimentos ou experiências sem perceberem o que de fato ocorreu com elas. Pois não percebem que têm uma reação de sentimento. Na maior parte das vezes sentem apenas o que chamamos de afeto, uma emoção acompanhada de sintomas fisiológicos colaterais. Quer dizer: uma atividade cardíaca aumentada, uma respiração acelerada, fenômenos motores - é isso que sentem. Mas quando se trata de uma reação de sentimento, muitas vezes nem o percebem, pois a reação de sentimento não vem acompanhada de fenômenos psicofísicos” (JUNG, Sobre Sentimentos e a Sombra: sessões de Winterthur, Editora Vozes, 2014, p. 10).

sábado, 3 de janeiro de 2015

Condorino aprende a voar


Metáfora  da autoria de Djalma Argollo

A cordilheira dos Andes se estende como uma imensa coluna vertebral por todo o imenso continente Sul Americano. Apesar da grande altura dos seus picos, ela ainda está sendo erguida pelo ciclópico embate entre as placas tectônicas da América do Sul e do Pacífico, por isso, terremotos de magnitudes variadas, são comuns por toda a sua extensão. 
No momento em que começo esse conto podia-se ver, nas encostas da mais alta montanha, vários ninhos que ostentavam ovos de Condor, a imponente ave cujos ancestrais acompanharam o nascer e morrer de diversos povos andinos, com seus rituais macabros de sacrifícios humanos, cujos esqueletos mutilados são escavados hoje em dia por arqueólogos estarrecidos. Os Condores testemunharam o surgimento do Império Inca, sua expansão, domínio e escravização de diversas tribos, e sua destruição, igualmente cruel, nas mãos sangrentas do ambicioso e perverso Pizzarro.
Numa sincronia ditada pelo ciclo do acasalamento, dos ovos chocados pelas Condores fêmeas começaram a nascer os filhotes que, naturalmente, vinham ao mundo delicados e frágeis, sem a imponência dos seus pais.
Condorino foi o último dos filhotes de todos os ninhos da região a quebrar a casca do ovo onde se desenvolveu. Assim, quando começou sua jornada existencial, todos os demais filhotes já estavam adiantadas etapas de crescimento.
Alimentado e protegido pelos pais, como os demais filhotes da vizinhança, Condorino se desenvolvia rapidamente. Sem muita coisa para fazer, senão comer os alimentos que seus pais regurgitavam bem fundo em seu bico ansioso e exigente, ficava observando as acrobacias aéreas dos Condores, no azáfama incessante da coleta de alimentos para si e para os filhotes. Seguindo com os olhos suas piruetas sofisticadas. Imaginava como seria bom voar daquela maneira. E se perguntava como conseguiam volitar pelos espaços, sem nada onde se sustentar. Interrogava os pais se um dia ele também voaria, e eles respondiam:
- Claro, filho, você também é um condor.
Escutava atento, mas sentindo a própria fragilidade, duvidava que isso fosse possível.
- Como é que se voa?
Indagou um dia à sua mamãe.
- Nós aproveitamos as correntes de vento que sobem e se espalham pelos espaços.
Respondeu ela, afagando-o com o bico.
- Por quê, pela manhã, você e o papai ficam parados à beira do ninho e, de repente se lançam ao espaço?
- Esperamos que o ar quente suba dos vales lá embaixo, pra dar sustentação às nossas asas. 
Retrucou a bela fêmea de Condor, com um sorriso.
E, de conversa em conversa, papai e mamãe Condor ensinavam-lhe as técnicas de voo usada pela sua espécie. Mas Condorino não conseguia entender nada.
Quando ele queria saber quando e como daria o primeiro voo, os pais lhe diziam, dando sonora gargalhada:
- Na hora certa você verá!
Num ninho próximo ao de Condorino, morava Condoreto, um amigo mais velho, com o qual conversava bastante, e de quem gostava muito. Certo dia, Condorino presenciou uma cena que o deixou transido de pavor: estava o amigo se divertindo em comer as pragas que infestavam-lhe o ninho, quando os pais chegaram. Era meio dia, e o sol a pino iluminava os picos cobertos de eterno gelo.
- Meu filho, chegou a hora de assumires tua vida. Até hoje viveste sustentado por nós, mas, de hoje em diante és adulto e terás de assumir tua vida e teu destino, como Condor que és.
É claro que Condoreto não entendeu nada, e Condorino que tudo escutava, menos ainda. E mais, viu estarrecido e apavorado quando a mãe de Condoreto o forçou a ir para a beirada do ninho e, sem mais aquela, o empurrou para o abismo. Ouviu o grito agoniado do amigo se perder na distância, enquanto caia vertiginosamente. Fechou os olhos aterrorizado. Por isso não presenciou quando o amigo, depois de cair algum tempo, abriu as asas e planou graciosamente de um lado para o outro, se perdendo depois na distância, por entre os picos menores que reluziam ao sol.
Condorino contou aos pais o que acontecera. Não podia entender como uma mãe era capaz de tal crueldade. Seus pais sorriram e nada disseram. Nos dias que se seguiram, Condorino teve pesadelos recorrentes, nos quais se via empurrado do ninho pela mãe, transformada numa águia perversa e sem entranhas, de olhos vermelhos e maus; enquanto seu pai, igualmente deformado, gargalhava sinistramente. Tombava, então, das alturas, vertiginosamente até o vale. Porém, antes que se chocasse contra o chão, acordava assustado e tremendo. Dia a dia ele via as mães empurrarem seus filhotes, escutava seus gritos, e fechava os olhos, tremendo de pavor.
Numa dessas ocasiões resolveu ficar de olhos abertos e viu que o filhote, depois de cair vários metros, saiu voando, sem muita firmeza, mas aos poucos ganhou altura e planou graciosamente pelos espaços. Ficou feliz que o filhote tivesse escapado, pois não vira o que acontecera com os outros. Como o mesmo fato se repetisse, em todos os ninhos, concluiu que esse também era o seu destino. Certamente ele morreria, pois não se sentia capaz de voar. Aterrorizado, passou a ficar amedrontado toda vez que que os pais chegavam ao ninho.
Um dia, percebeu que chegará a sua hora. Sua mãe, e seu pai lhe disseram:
- Filho, agora você vai assumir sua vida. 
E apesar de seus gritos e choro convulsivo, sua mãe, impiedosamente, o empurrou no abismo que, qual enorme e hiante boca, começou a engoli-lo.
Imobilizado pelo medo, caia rumo a uma morte certa quando ouviu uma voz conhecida a lhe gritar:
- ABRA AS ASAS, CONDORINO!
Abriu os olhos e, na vertigem da queda, viu seu amigo Condoreto, voando ao seu redor.
Fazendo um imenso esforço, abriu o mais que pôde suas grandes asas e sentiu um solavanco, causado pelo impacto das correntes quentes que subiam das planícies onde corria o Rio Paraná, que fez estremecer todo o seu corpo. Cambaleou por algum tempo, vendo-se às vezes de cabeça para baixo, às vezes de cabeça para cima.
- VAMOS, MANTENHA-SE FIRME!
Gritou Condoreto.
- MAS EU NÃO SEI VOAR!
Gritou apavorado, sentindo que o chão se aproximava, rapidamente.
- ENTENDO VOCÊ, MAS SAIBA QUE TODOS NÓS, CONDORES, NASCEMOS SABENDO VOAR. É NOSSO INSTINTO. ENTREGUE-SE, A ELE!
Essas palavras calaram fundo na mente de Condorino. Ele se lembrou do filhote que vira, depois de cair algum tempo, sair voando. Aquela visão ganhou força em sua mente e, apesar do medo que sentia, deixou que o sentimento de satisfação ao ver o outro começar a voar, lhe empolgasse o ser! O medo desapareceu como por encanto, sentiu-se motivado pela certeza de que podia também voar. Se outros, como Condoreto podiam, ele, como Condor que era, também podia! Então, quando faltavam poucos metros para se esborrachar numa morte horrível, sentiu-se ascender, ganhando altura e, alegre, percebeu-se voando, como se sempre o tivesse feito. 
Enquanto Condoreto voava em torno dele, sorrindo alegremente, pôs-se a gargalhar de puro alívio: afinal, Condoreto, que aprendera antes dele às custas de uma dura mas necessária experiência, tinha razão: os Condores nasceram para voar. É só acreditar no instinto e deixar-se levar que tudo acontece naturalmente.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Esboço Biográfico de C. G. Jung

(Do Livro Jung e a Mediunidade, de Djalma Motta Argollo)

Carl Gustav Jung nasceu em 26 de julho de 1875, em Kesswil, cantão da Turgóvia, uma pequena cidade Suíça, às margens do Lago Constança, acidente geográfico que serve de fronteira entre esse país e a Alemanha. Seu Pai, Johannes Paul Achilles Jung, era pastor protestante e sua mãe, cujo nome de solteira era Emilie Preiswerk é descrita como uma mulher de gênio difícil, autoritária e, o que realmente interessa a esse estudo, médium. Aliás, a mediunidade foi comum na sua família pelo lado materno, Como veremos mais adiante. Seis meses após o nascimento do filho, mudaram-se para o presbitério do castelo de Laufen, perto da cidade de Basiléia, na região das quedas do rio Reno, na sua margem Suíça. Quatro anos mais tarde, em 1879, uma nova mudança aconteceu: agora para Klein-Hüningen, próximo à Basiléia. Ali, em 1884, nasceu Johanna Gertrud, irmã de Jung que veio a falecer em 1935.
Da mãe, ele guardava uma imagem terna, cheia de admiração:

Minha mãe foi extremamente boa para mim. Ela irradiava um grande calor animal: era corpulenta, extremamente simpática. Sabia ouvir e gostava de conversar, num alegre murmúrio de fonte. Tinha evidentes dons literários, bom gosto, profundidade. Tais qualidades, entretanto, não se manifestavam exteriormente; permaneciam ocultas numa velha senhora gorda, muito hospitaleira, que cozinhava muito bem e tinha muito senso de humor (Jung, 1997, p. 54).

O pai de Jung permanece em suas lembranças como um homem bom, embora de personalidade fraca, sem grandes ambições na vida, um Pastor sem fé no que pregava, o que lhe causava terríveis conflitos íntimos. Na adolescência de Jung, pai e filho tinham muitas e acerbas discussões. Com a morte do pai, Jung, já na universidade, assumiu o posto de chefe de família. Ele narra que a personalidade número 2 (provável interferência mediúnica) de sua mãe lhe disse algum tempo depois: “Ele desapareceu na hora certa para você”; isto parecia significar: “Vocês não se compreendiam e ele poderia ser um obstáculo para você” (Jung, 1997, p. 92). Por aí se pode perceber o clima emocional atribulado naquela família.
Jung foi, durante a infância, perturbado por conflitos, ansiedades e temores. Os pesadelos eram freqüentes e, também, sofreu inúmeros acidentes, que atribuiu em suas memórias a um desejo inconsciente de suicídio.
As crises de dupla personalidade que o assaltavam desde a mais remota infância, batizadas como personalidade 1 e personalidade 2, podem ter como origem a intromissão de lembranças de vidas pretéritas, como sua autobiografia leva a suspeitar, ou a um processo obsessivo com origem em mentes espirituais em desequilíbrio, conforme os ensinos espíritas.
Até sua juventude, o cotidiano de Jung caracterizou-se também por grave crise religiosa, fruto de problemas que devia trazer no inconsciente, aguçados, ou até mesmo estimulados, pela atitude paradoxal de seu pai ser um Pastor sem fé, o que naturalmente o levava a viver um insolúvel dilema existencial. Suas fantasias e sonhos denunciavam esses conflitos.
Aos onze anos, em 1886, ingressou no Liceu de Basiléia, onde realizou seus estudos preparatórios, o que denominamos de primeiro e segundo graus. Desde muito cedo, Jung apresentou intensa curiosidade intelectual, transformando-se num leitor assíduo e de múltiplos interesses, o que lhe proporcionou acumular vasto cabedal de informações, as quais se demonstraram de grande valor em seu trabalho posterior.
Sua vida de colegial foi marcada por atritos com colegas e professores, sendo que estes últimos não conseguiam reconhecer-lhe a genialidade precoce, atribuindo suas dissertações bem elaboradas a plágios ou cópias, o que muito o amargurava.
Quando teve de se definir por uma carreira de nível superior, Jung se dividiu entre a arqueologia e as ciências naturais. Terminou por escolher a medicina, curso que iniciou em 18 de abril de 1895. Ainda nesse ano, fazendo parte da confraria estudantil Zofingia – à qual seu pai pertencera na época de estudante – sobressaía pelas exposições e debates sobre as idéias de Mesmer, Swedenborg, Lombroso (1835-1909) e Schopenhauer. Apontava as falhas da filosofia materialista e defendia o estudo científico dos então chamados “fenômenos psíquicos”. No ano seguinte à sua entrada na universidade, faleceu-lhe o pai.
Entre 1896 e 1899, proferiu cinco palestras na Fraternidade Zofingia, sendo a primeira sobre os fenômenos do espiritismo, como será detalhado mais adiante. E, entre 1898 e 1900 participou de reuniões mediúnicas com familiares, tendo como médium sua prima de 15 anos Hélène Preiswerk.
Em 1900, depois da leitura do Manual de Psiquiatria de Kräfft-Ebing, decidiu-se pela especialização nessa área. No mês de dezembro do mesmo ano, assumiu o lugar de assistente no hospital de Burghölzli, em Zurique. Nesse ano cumpriu, também, seu primeiro período de serviço militar. Em 1902 publicou sua tese de doutorado: “Sobre a Psicologia e Patologia dos Fenômenos Chamados Ocultos”.
No Hospital Psiquiátrico do Cantão de Zurique, entre 1902 e 1906, desenvolveu com alunos e colegas estudos sobre associação de idéias, independentemente das construções teóricas de Freud a esse respeito, provando cientificamente sua validade para a descoberta dos complexos - termo que criou – da psiquê. Estes estudos lhe valeram um convite para apresentá-los na Clark University, nos Estados Unidos, em 1909, onde foi agraciado com o título de doutor honoris causa. No período em que trabalhou naquele hospital, Jung desenvolveu notáveis estudos em torno da esquizofrenia, principalmente no que diz respeito às personalidades múltiplas, que os psicanalistas negaram por muito tempo, e que acabaram sendo reconhecidas como uma realidade, e não criações enganadoras de pacientes mitômanos.
Em 14 de fevereiro de 1903 Jung casou-se com Emma Rauschenbach, com quem veio a ter cinco filhos. Nesse mesmo ano, relendo a Interpretação dos Sonhos, de Freud – lido por ele três anos antes sem maiores conseqüências – verificou afinidade entre idéias desse autor e suas, passando a divulgá-lo e defendê-lo no meio universitário onde, então, era considerado persona non grata.
Em 1906, enviou a Freud seu livro com as experiências e conclusões em torno da associação de idéias, iniciando-se aí uma correspondência entre os dois. Em 1907, a convite de Freud, foi a casa deste, nascendo aí uma amizade e colaboração que duraram até o rompimento definitivo em 1913, com o aprofundamento de divergências teóricas inconciliáveis.
Carl Gustav Jung desenvolveu o conceito de inconsciente, desdobrando-o em inconsciente pessoal e inconsciente coletivo, a partir de suas experiências e observações. Descobriu e estudou os arquétipos do inconsciente coletivo, material que verificou ser comum aos seres humanos, e que se manifestam através de recursos simbólicos nos mitos e nas figuras míticas de todos os povos. Suas contribuições à compreensão do psiquismo ainda estão sendo desdobradas por psicólogos atuais, graças a proficuidade dos conceitos que elaborou ao longo de sua vida de estudioso pertinaz da alma humana. Um fato importante foi o ter quebrado a rigidez e frieza da relação médico-paciente comum na psicanálise, substituindo-a por uma inter-relação dinâmica e compartilhada, pois ambos se envolvem num processo que não é apenas de “cura” de um – o paciente – mas de desenvolvimento de valores profundos e fundamentais de ambos.
Dentre seus estudos estão aqueles em torno dos fenômenos parapsicológicos, ou mediúnicos, para os quais buscou elaborar uma teoria, a da sincronicidade, em parceria com o cientista e Prêmio Nobel de física Wolfgang Pauli (1900-1958), utilizando-se do princípio de indeterminação ou incerteza [1] de Werner Heisenberg (1901-1976).
Depois de toda uma vida dedicada à descoberta de meios e modos de trazer mais alegria e plenitude ao ser humano, Carl Gustav Jung faleceu no dia 6 de junho de 1961, em Küsnacht, onde foi cremado e suas cinzas depositadas no túmulo da família.


[1] Princípio de mecânica quântica, enunciado em 1929: é impossível discernir simultaneamente e com alta precisão a posição e o momento de uma partícula subatômica.